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Rachida e Saad são um casal marroquino no mínimo
diferente. Pra começar, ela é policial civil, usa as roupas que quer e tem
liberdade para conversar com quem quiser, inclusive homens, mesmo na
ausência do marido. Saad é carinhoso, beijoqueiro e brincalhão, não se
priva de abraçá-la e beijá-la mesmo na presença de todos. Ambos são uma
companhia muito agradável, porque são felizes, se respeitam e se adoram.
Não são melhores nem piores. São, com certeza, um casal mais que amável.
Segui com eles até Larache, minha próxima parada, enquanto os dois
continuaram o caminho de volta pra casa, em Tangier. Larache, a mais
visitada das praias do norte, não é tão dependente do turismo como Asilah,
outra praia dessa região, e apresenta visuais muito bonitos do atlântico,
com praias bem abertas, de mar revolto. Essas praias, porém, ficam a alguns
quilômetros da cidade e muitas vezes o acesso não é nada fácil. Ainda em
Larache, meio sem ter o que fazer, decidi visitar as ruínas antigas da
cidade, da época em que era chamada de Lix e funcionava como entreposto
fenício. Vocês se lembram dos fenícios, lá da oitava série? Pois é,
esse povo marítimo e mercante, exímios matemáticos e criadores do
"pai" do nosso alfabeto, possuía paradas estratégicas ao longo
da costa africana. E, por conta deles, Lix foi a primeira cidade do
Marrocos, no século XIII antes de Cristo. Só pra se ter uma idéia de como
as coisas mudam com o tempo, era em Lix que os barcos atracavam e
descarregavam os produtos que seriam escoados para outras regiões. Hoje as
ruínas descansam no topo de um morro, a mais de dois quilômetros do mar!
Caminhar pelo anfiteatro, ruas e casas, tentar imaginar como era a vida
naqueles tempos foi bem divertido. Toda essa aula de história foi dada por
Mustafá, o segurança do local que, com seus mais de sessenta anos,
relembra essas palavras ainda dos tempos em que seu avô cumpria a mesma
função que hoje é sua, e me encanta também, num espanhol quase perfeito,
com histórias dos seus tempos de infância, brincando nas ruínas, ou de
causos de turistas das mais diferentes partes do mundo, dos quais aprende um
pouquinho de lugares que nunca foi nem irá. Mustafá sabe oito idiomas,
mais que os dentes de sua boca. Ainda com o cheiro de sal no corpo,
lembrança de Larache, parto para a última cidade antes de regressar a
Tangier: Chefchaouen, a capital das Montanhas Rif. Chaouen, como é chamada
pelos marroquinos, fica encravada no meio de paredões rochosos, verdes e
com alguns desfiladeiros de pedra, famosa pela inteligência dos seus
nativos (muitos ministros e estudiosos do país nasceram por lá), por sua
beleza e por ser o reduto de jovens espanhóis ávidos por um "porrito"
de qualidade. Durante as férias há uma invasão de turistas na cidade,
isso porque boa parte da maconha produzida no Marrocos é cultivada em
lavouras por entre as montanhas, que vai abastecer tanto o apetite dos
turistas quanto de quase todo o mercado europeu, tendo como porta de entrada
a Espanha, e como porta de saída, Tangier. Deixando o Mercado Internacional
de lado, Chaouen é repleta de trilhas e paisagens estonteantes –
sobretudo depois de vários dias pelo árido interior – com suas casinhas
brancas de portas azuis e sua praça, no alto da medina, sempre agitada. Foi
na praça que encontrei mais uma dessas figuras pitorescas da viagem, um
japonês que tinha pretensões de circundar o Mar Mediterrâneo por terra.
Após percorrer a parte européia legalmente e a maioria dos países
africanos subornando os fiscais de fronteira, viu sua estratégia fracassar
na Líbia, país rico em petróleo, onde os funcionários públicos recebem
bem o suficiente pra não aceitarem expedientes como esse. Resultado: como a
fronteira da Argélia com o Marrocos está fechada e no Chade eclodiu uma
guerra civil, ele teve que refazer todo o caminho de volta, mais de 10.000
Km, passando por Níger, Mali, Guiné, Senegal, Mauritânia, Saara Ocidental
até empacar, com 20 Dh no bolso, em Chaouen. Na minha última noite em
Chaouen assisti a um show de tambores, comi peixe, que é mais barato ali do
que no litoral e dormi numa espelunca. Não fiquei em Chaouen pra ver o
final do japonês, tive que seguir meu próprio caminho, a despedida desse
país encantador, diferente, cheio de surpresas e cultura, poeira e camelos,
povo alegre e esperto, e vida, muita vida. Mais uma passada em Tangier para
me despedir dos amigos Rachida e Saad, Laila, meu anjo da guarda de
plantão, obrigado por tudo, e Christophe, que me hospedou em sua casa por
tempo indeterminado, hora de voltar a Europa. Dessa vez, decidi pegar o
ferry até Tarifa, o ponto mais sul do território espanhol, por isso mais
próximo de Portugal que Algeciras. A viagem de volta seria beeeemmmm mais
rápida que a de ida, tanto pela distancia quanto pela velocidade do barco!
Por segurança, compro minha passagem logo cedo e sou o primeiro da fila
para embarcar, tranqüilo, apenas aguardando o fiscal de fronteira. Quando o
bendito chega, !!BOMBA!!, minha calma vai pro espaço, não posso entrar,
"por quê, meu Deus, por quê?", "Para sair de Marrocos,
você precisa ter o passaporte carimbado OUTRA VEZ, e você tem 5 MINUTOS
antes que seu barco parta!", "@#$%¨&*!!!", deixo minha
mochila no pé do cais e saio em disparada na busca do tal carimbo, chego no
guichê, !!SURPRESA!!, a paca responsável não sabe que brasileiros não
precisam de visto para entrarem na Espanha, "vai falar com o chefe,
garoto!", mais 100 metros rasos, chego no chefe, "só um
instante... hum, ham, hein... você vai ter de falar com o chefe...",
"mas não é você o chefe?", "não, o chefe está lá na
entrada do porto!", que sorte infeliz, com os bofes de fora e as pernas
bambas, chego, finalmente, no chefe do chefe, "...hum, ham... só um
minuto...", eu já separava o dinheiro do suborno e, certo de que o
barco já estava na Espanha, só queria poder ver minha mochila quando
voltasse ao cais, "A Embaixada autorizou sua saída, você realmente
não necessita de visto", naquele momento, o chefe do chefe acabava de
descobrir a América! Estampa no passaporte, desilusão estampada na cara e
roxo de tanto correr, nada me faria mais feliz que ter minha mochila comigo.
Quer dizer, quase nada. Ao lado da mochila, lá estava a porcaria do barco,
com o motor quebrado, esperando por conserto. E eu não sabia se ria ou
chorava, "PQP, DEUS E BRASILEIRO, MOCHILEIRO E SABOTADOR DE
MOTORES!". Depois desse estresse todo, do mar agitado e do barquinho de
papel sacudindo pra todo lado, não deu outra, meu almoço bateu o solo da
Espanha antes de mim. Nojento porém verídico. Bem vindo de volta ao velho
continente!
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