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  Brasil -Domingo, 05 de fevereiro de 2012 - Hora: 19:47

 
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Viagem pela Europa - Marrocos - Final

Marrocos - Final

Rachida e Saad são um casal marroquino no mínimo diferente. Pra começar, ela é policial civil, usa as roupas que quer e tem liberdade para conversar com quem quiser, inclusive homens, mesmo na ausência do marido. Saad é carinhoso, beijoqueiro e brincalhão, não se priva de abraçá-la e beijá-la mesmo na presença de todos. Ambos são uma companhia muito agradável, porque são felizes, se respeitam e se adoram. Não são melhores nem piores. São, com certeza, um casal mais que amável. Segui com eles até Larache, minha próxima parada, enquanto os dois continuaram o caminho de volta pra casa, em Tangier. Larache, a mais visitada das praias do norte, não é tão dependente do turismo como Asilah, outra praia dessa região, e apresenta visuais muito bonitos do atlântico, com praias bem abertas, de mar revolto. Essas praias, porém, ficam a alguns quilômetros da cidade e muitas vezes o acesso não é nada fácil. Ainda em Larache, meio sem ter o que fazer, decidi visitar as ruínas antigas da cidade, da época em que era chamada de Lix e funcionava como entreposto fenício. Vocês se lembram dos fenícios, lá da oitava série? Pois é, esse povo marítimo e mercante, exímios matemáticos e criadores do "pai" do nosso alfabeto, possuía paradas estratégicas ao longo da costa africana. E, por conta deles, Lix foi a primeira cidade do Marrocos, no século XIII antes de Cristo. Só pra se ter uma idéia de como as coisas mudam com o tempo, era em Lix que os barcos atracavam e descarregavam os produtos que seriam escoados para outras regiões. Hoje as ruínas descansam no topo de um morro, a mais de dois quilômetros do mar! Caminhar pelo anfiteatro, ruas e casas, tentar imaginar como era a vida naqueles tempos foi bem divertido. Toda essa aula de história foi dada por Mustafá, o segurança do local que, com seus mais de sessenta anos, relembra essas palavras ainda dos tempos em que seu avô cumpria a mesma função que hoje é sua, e me encanta também, num espanhol quase perfeito, com histórias dos seus tempos de infância, brincando nas ruínas, ou de causos de turistas das mais diferentes partes do mundo, dos quais aprende um pouquinho de lugares que nunca foi nem irá. Mustafá sabe oito idiomas, mais que os dentes de sua boca. Ainda com o cheiro de sal no corpo, lembrança de Larache, parto para a última cidade antes de regressar a Tangier: Chefchaouen, a capital das Montanhas Rif. Chaouen, como é chamada pelos marroquinos, fica encravada no meio de paredões rochosos, verdes e com alguns desfiladeiros de pedra, famosa pela inteligência dos seus nativos (muitos ministros e estudiosos do país nasceram por lá), por sua beleza e por ser o reduto de jovens espanhóis ávidos por um "porrito" de qualidade. Durante as férias há uma invasão de turistas na cidade, isso porque boa parte da maconha produzida no Marrocos é cultivada em lavouras por entre as montanhas, que vai abastecer tanto o apetite dos turistas quanto de quase todo o mercado europeu, tendo como porta de entrada a Espanha, e como porta de saída, Tangier. Deixando o Mercado Internacional de lado, Chaouen é repleta de trilhas e paisagens estonteantes – sobretudo depois de vários dias pelo árido interior – com suas casinhas brancas de portas azuis e sua praça, no alto da medina, sempre agitada. Foi na praça que encontrei mais uma dessas figuras pitorescas da viagem, um japonês que tinha pretensões de circundar o Mar Mediterrâneo por terra. Após percorrer a parte européia legalmente e a maioria dos países africanos subornando os fiscais de fronteira, viu sua estratégia fracassar na Líbia, país rico em petróleo, onde os funcionários públicos recebem bem o suficiente pra não aceitarem expedientes como esse. Resultado: como a fronteira da Argélia com o Marrocos está fechada e no Chade eclodiu uma guerra civil, ele teve que refazer todo o caminho de volta, mais de 10.000 Km, passando por Níger, Mali, Guiné, Senegal, Mauritânia, Saara Ocidental até empacar, com 20 Dh no bolso, em Chaouen. Na minha última noite em Chaouen assisti a um show de tambores, comi peixe, que é mais barato ali do que no litoral e dormi numa espelunca. Não fiquei em Chaouen pra ver o final do japonês, tive que seguir meu próprio caminho, a despedida desse país encantador, diferente, cheio de surpresas e cultura, poeira e camelos, povo alegre e esperto, e vida, muita vida. Mais uma passada em Tangier para me despedir dos amigos Rachida e Saad, Laila, meu anjo da guarda de plantão, obrigado por tudo, e Christophe, que me hospedou em sua casa por tempo indeterminado, hora de voltar a Europa. Dessa vez, decidi pegar o ferry até Tarifa, o ponto mais sul do território espanhol, por isso mais próximo de Portugal que Algeciras. A viagem de volta seria beeeemmmm mais rápida que a de ida, tanto pela distancia quanto pela velocidade do barco! Por segurança, compro minha passagem logo cedo e sou o primeiro da fila para embarcar, tranqüilo, apenas aguardando o fiscal de fronteira. Quando o bendito chega, !!BOMBA!!, minha calma vai pro espaço, não posso entrar, "por quê, meu Deus, por quê?", "Para sair de Marrocos, você precisa ter o passaporte carimbado OUTRA VEZ, e você tem 5 MINUTOS antes que seu barco parta!", "@#$%¨&*!!!", deixo minha mochila no pé do cais e saio em disparada na busca do tal carimbo, chego no guichê, !!SURPRESA!!, a paca responsável não sabe que brasileiros não precisam de visto para entrarem na Espanha, "vai falar com o chefe, garoto!", mais 100 metros rasos, chego no chefe, "só um instante... hum, ham, hein... você vai ter de falar com o chefe...", "mas não é você o chefe?", "não, o chefe está lá na entrada do porto!", que sorte infeliz, com os bofes de fora e as pernas bambas, chego, finalmente, no chefe do chefe, "...hum, ham... só um minuto...", eu já separava o dinheiro do suborno e, certo de que o barco já estava na Espanha, só queria poder ver minha mochila quando voltasse ao cais, "A Embaixada autorizou sua saída, você realmente não necessita de visto", naquele momento, o chefe do chefe acabava de descobrir a América! Estampa no passaporte, desilusão estampada na cara e roxo de tanto correr, nada me faria mais feliz que ter minha mochila comigo. Quer dizer, quase nada. Ao lado da mochila, lá estava a porcaria do barco, com o motor quebrado, esperando por conserto. E eu não sabia se ria ou chorava, "PQP, DEUS E BRASILEIRO, MOCHILEIRO E SABOTADOR DE MOTORES!". Depois desse estresse todo, do mar agitado e do barquinho de papel sacudindo pra todo lado, não deu outra, meu almoço bateu o solo da Espanha antes de mim. Nojento porém verídico. Bem vindo de volta ao velho continente!

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