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Assim como de Marrakesh, sair de Tinhir foi uma dureza!
Como o único ônibus em direção ao interior partia as oito da manhã,
tive de acordar bem cedo pra pegar um grand táxi, pois meu camping ficava
entre os Gorges e a cidade (Camping Le Lac, vale a pena!). O problema e que
todos os carros que passavam iam na direção dos Gorges, atração
turística, e os que voltavam já estavam todos lotados. Depois de muita
espera e apreensão, percebi que a única maneira seria mesmo ir ate os
Gorges, pra daí, finalmente, pegar outro táxi ate o ônibus. Já dentro do
táxi, roendo unha e contando os segundos !!aleluia!! chego no exato momento
em que o ônibus passava pela parada de táxi, agora e só acenar e
embarcar, certo? Nada disso, o motorista me cumprimenta, sorri e a gaiola
passa reto! Fala sério, depois de todo esse esforço! Com a voz mais calma
do mundo, a sábia explicação de Mustafá me conforta, "meu jovem,
imagine o que seria do ônibus se ele parasse bem em frente aos táxis e
roubasse um cliente, ainda mais um turista...". Resultado: tive de
pingar de grand táxi em grand táxi ate alcançar a gaiola do motorista
sorridente e rumar para Erfoud, final da rodovia, de onde se pega qualquer
meio de transporte "alternativo" – desde a van branca, fedida e
cheia de moscas por 15Dh até um Land Rover 4x4 – para cruzar 30Km de uma
imensidão poeirenta, solene, e ver, enfim, as curvas douradas das dunas de
Merzouga, enfim, o deserto! Apesar de já fazer parte do complexo do Saara e
de possuir altas dunas, Merzouga é um deserto relativamente pequeno. Do
alto, é possível ver o seu final, a poucos quilômetros da fronteira com a
Argélia, fronteira essa que há muito tempo está fechada, uma região nada
amistosa e recheada de minas terrestres! (portanto, aventureiros de
plantão, nada de "expedições" por ali , certo?). Aprender como
montar um camelo, receber um turbante azul, água, muita água, já é hora
de partir, fazer do céu de estrelas um teto iluminado, da areia fofa um
colchão de plumas, do sol o meu bom-dia, e que bom-dia lindo, que calor, o
nascer dessa criatura brilhante só não é mais belo que seu até-logo,
visto lá de cima, do mais longo fio de cabelo do gigante de areia, a cor
quente que queima a cara de quem se atreve admirá-lo feito bobo invade
todos os cantos daquele exército de gigantes que não se cansam de caminhar
por toda a vida, como errantes, por capricho da brisa, que sopra e abençoa,
ao som dos sinos do Senhor, o meu sono, os meus sonhos. Obrigado aos Tuaregs
pela comida e morada e ao Artista, criador do deserto de Merzouga. No dia
seguinte, de carona com um grupo de franceses, sigo rumo a Errachidia, onde
peguei um ônibus noturno até Fes, a Cidade Imperial, primeira capital do
Marrocos. Viajar todo esse tempo sozinho e sem contato com minha própria
língua me fez divagar muito, dos mais complexos aos mais tontos
raciocínios. Um deles diz respeito aos camelos – como são simpáticos
aqueles bichões! De piercing no nariz, almofadinhas nos pés, mascando
chiclete e sempre com aquela cara de "e aí, maluco, beleza?",
são um show à parte. Tenho saudades da Ruth, minha camela tagarela e
sentimental. Um dia, quem sabe, irei revê-la. Fes foi um pouco
decepcionante - a cidade, tida por muitos como visita obrigatória, é
famosa por abrigar muitos palácios e edifícios antigos além de possuir a
maior medina de Marrocos (medina = parte antiga). O problema é que nas mais
belas e importantes construções o acesso é restrito e, além disso,
caminhar pela medina sem topar com um tubarão é quase impossível, há
dezenas de "guias", "casas de família por um preço
amigo", "chocolate divertido" e todo tipo de corrupção que
torna uma simples caminhada realmente desagradável. Tão desagradável que
não pensei duas vezes em aceitar o conselho de um senhor super simpático e
apaixonado por futebol, que numa conversa descontraída me sugeriu visitar o
vilarejo de Moulay Yacoub, a 20 Km de Fes, famoso por suas águas quentes e
medicinais, sagradas para o povo do país. A atmosfera de Moulay Yacoub é
muito aconchegante com seu clima montanhoso e suas poucas ruas e escadarias.
No hamam do vilarejo (hamam = banho público), aberto inclusive para
turistas (7 Dh), passei boas horas num banho quente e relaxante, com direito
a massagem (50 Dh) e companhia de pessoas de todo o país que buscam ali uma
cura pela água ou apenas paz, produto em falta no mercado das grandes
cidades, como Fes, por exemplo. Foi curioso perceber como as pessoas do
Marrocos preocupam-se com a higiene do próprio corpo, algo diretamente
associado com a religião islâmica (alguns afegães que conheci, por
exemplo, banhavam-se cinco vezes ao dia, sempre antes de cada oração) mas
também associado à cultura Berbere, de antes da invasão muçulmana. Ainda
no hamam, ocorreu-me um episódio estranho: ali, assim como em outros
lugares turísticos, havia fotógrafos com máquinas polaroids, na busca por
clientes. Um deles tentou insistentemente me convencer a tirar uma foto até
que, diante da minha recusa, tirou-a assim mesmo e criou um escândalo, na
tentativa de me forçar a pagar pela foto na base da coação, aproveitando
o fato de eu ser um turista. Resultado: lá vão os dois pra Delegacia, onde
nenhuma alma viva falava outra língua ocidental além do francês! Só
escapei do malandro graças a Rachida e Said, casal que conheci no táxi de
Fes para Moulay Yacoub e que estava na mesma pensão que eu. Por sorte,
Rachida também era policial e resolveu tudo rapidamente. Fica aí o recado,
pessoal, este tipo de fato não é comum, mas pode acontecer, por isso, se
você vai ao Marrocos, esteja preparado. Ainda na companhia do meu casal
salvador, deixo as águas sagradas e com elas o interior do país. Depois de
muitos dias intensos, descobertas e alegrias, sustos e muita, muita poeira,
parto para minha última semana no Marrocos, já pensando na volta ao
continente europeu... assunto para o nosso próximo texto, até logo!
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