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  Brasil -Sexta-feira, 12 de março de 2010 - Hora: 2:18

 
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Viagem pela Europa - Marrocos - Parte 2

Marrocos - Parte 2

Foi pouquíssimo tempo em Marrakesh e a vontade de voltar é grande. A rodoviária da cidade e tão caótica quanto qualquer coisa em Marrocos, pra começar os guiches são relativos aos destinos e não as empresas - seria como se houvesse um guiche "Goiânia" que vendesse bilhetes de todas as companhias - ha gente por todo lado, alguns turistas em direção ao litoral, muitos Berberes em direção ao interior, e todos os ônibus se enroscando na disputa por cada metro quadrado.
No guiche de Essaouira, tive um papo muito bacana com o vendedor de bilhetes. Conversamos sobre o turismo no pais, de que forma a dependência pelo dinheiro dos visitantes afeta a vida do povo, desenvolve uma economia altamente especulativa e cria muitas mentes corruptas, todos na busca por mais uma moedinha de euro. Era um rapaz alto e magro, dos poucos que falavam inglês por la, eu não me lembro seu nome... mas ele também não se lembra do meu, então ficamos por isso mesmo.
As nove horas de uma manha ensolarada e poeirenta embarco rumo a Ouarzazate, na viação mais barata. O ônibus era uma gaiola. Antes de entrar, porem, tem sempre aquele sujeito super prestativo querendo te ajudar a guardar sua mochila no bagageiro, so que nessa eu já estava escolado e sabia que iria me custar uns 10 Dh. Nada feito. Já eram quase dez horas quando, finalmente, começa a viagem, não pelo trafico, mas sim pelas pessoas catadas pelo caminho - so pra sair da rodoviária foi quase meia hora! - e eu, de havaianas, comendo poeira e suando como um porco, achei tudo isso muito bom, demais!!
A viagem de Marrakesh a Ouarzazate é desgastante e simplesmente maravilhosa. A paisagem seca e vermelha das montanhas, que parecem se esfarelar como torrões de açúcar, contrastam com a neve eterna no topo da cadeia Atlas. O sol forte e onipresente toma o espaço onde deveria haver casas, gente, vida, coisas raras de se ver por ali. Os berberes, primeiro povo de Marrocos, povoam as montanhas e o interior do pais, os desertos e as dunas, regiões inóspitas como esse caminho, a margem, enquanto os árabes se concentram nas principais cidades, reflexos de guerras antigas, coisas da historia (qualquer semelhança com nossos morros e favelas é mera coincidência...) A rodovia era tão sinuosa que parece entortar o mundo e em cada curva o motorista buzinava para comunicar a nossa presença, precaução mais que necessária diante da largura - ou estreiteza - da pista, depois de algumas horas de fortes emoções chegamos em Ouarzazate, a "Hollywood do Deserto"!
A cidade recebe esse titulo porque abriga um grande estúdio de cinema no qual muitos filmes americanos foram rodados, como Lawrence das Arábias, por exemplo. Alem disso, possui alguns Kasbahs, que são palácios reais antigos. O problema é que para visitar qualquer uma das duas opções você terá que pegar o bom e velho Grand Taxi e, como so turista visita esses locais, os preços são tabelados nas alturas. No mais, a cidade não tem nada de especial apesar do povo ser bem gentil, e o único fato digno de nota foi, após ter pedido o Guia emprestado para um turista austríaco, descobrir que a 50km dali, na minha direção, havia o Vale das Rosas e que nessa época do ano esta totalmente florido! Não bastasse a decepção, ainda levei uma cantada do austríaco gay, fala serio!! Desvantagens de não ter um guia.
Depois de Ouarzazate, estava ansioso para encontrar algo interessante no meu caminho em direção ao Deserto de Merzouga, já na fronteira com a Argélia. Logo cedo, deixei a cidade rumo a Tinhir, na metade do caminho, para visitar o Gorge do Todra. Os Gorges são formações rochosas que se estendem por muitos metros acima do chão formando corredores e canions, também de cor muito vermelha, alem dos de Tinhir, ha ainda os Gorges do Dades, algumas cidades antes. Tinhir, alias, e uma cidade típica daquela região, se desenvolve em torno de um vale de palmeiras, sinal de respeito a uma das raras fontes de água e subsistência em muitos quilômetros, a cidade é totalmente dependente da agricultura e, agora, dos turistas.
Conhecer os paredões do Todra, caminhar por aquela paisagem lunar e admirar as diferentes plantas e pessoas que vivem por la, como a rosa verde de varias pontas ou pastor de ovelhas que conduz seu rebanho sozinho morro acima, foi uma experiência muito interessante, valeu mesmo. Sem falar que, no caminho, joguei futebol duas vezes. O curioso e que fui convidado pra jogar em árabe, aceitei em português e todo mundo se entendeu perfeitamente. No outro dia, ao lado de François, francês que conheci no ônibus, e Mustafa, berbere, companheiro inseparável de seu cachimbo com kif, fui conhecer o interior do Vale das Palmeiras, um lugar fantástico, pleno em vida, os pássaros cantam por todos os lados, os burricos relincham em sinfonia e as pessoas, todos, homens, mulheres e crianças num trabalho duro para aproveitar cada gota de água, com a construção de diques e canais, arar a terra, plantar milho, figos, menta (eu nunca tinha visto uma plantação de menta) e rezar para que a chuva venha... e venha apenas o suficiente... e venha no momento certo. Uma dessas pessoas foi uma das mais lindas criaturas que conheci em toda minha viagem, Mohammed. Esse marroquino de sorriso fácil, pele castigada pelo sol e olhar vago, típico dos que sofrem muito por toda a vida, era doce e querido por todos, logo que chegamos fomos convidados por ele para comer no prato de sua própria família o cuscuz mais delicioso que eu experimentei em Marrocos. Quando nos convidou para ir a sua casa, por um momento temi que isso fosse mais um truque para arrancar dinheiro de turistas. Não dessa vez. Mohammed nos mostrou sua destilaria caseira, de onde extraia álcool de figos e de datt, o fruto da palmeira, ambos deliciosos! Conhecemos sua família, tomamos chá, ouvimos musica berbere e nos impressionamos com a habilidade que aquele homem sem um braço tinha de enrolar seu cigarro. Quando Mohammed contou como ele perdeu seu braço por conta de um estúpido erro medico, seus olhos caíram no vazio e por alguns segundos seu sorriso deixou de brilhar. Você perde um braço que custa metade do que sua família come, sacrifica sua mulher e filhos a um trabalho ainda mais duro, mesmo que se esforce para dar tudo de si, para ser o mesmo de antes, mas não e, por conta da negligencia e ignorância de quem deveria curar e tudo isso te custa apenas alguns segundos de sorriso...
Chega de tristeza! Depois, eu, Mustafa, Francois e Mohammed fomos a Tinhir conhecer melhor a cidade, comer mais um tagine e jogar muita conversa fora. Mustafa me deu bronca por comer com a mão esquerda (e difícil ser canhoto em países muçulmanos), Mohammed deu risada e François deu cria porque o seu Olimpique de Marseille perdia a partida na TV. Esse lugar e essa gente deixaram saudade.
Próxima parada, Esperança! Ops, não era isso. Próxima parada, Merzouga e suas dunas, camelos, tuaregs, enfim, o deserto!

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