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Foi pouquíssimo tempo em Marrakesh e a vontade de voltar é
grande. A rodoviária da cidade e tão caótica quanto qualquer coisa em
Marrocos, pra começar os guiches são relativos aos destinos e não as
empresas - seria como se houvesse um guiche "Goiânia" que
vendesse bilhetes de todas as companhias - ha gente por todo lado, alguns
turistas em direção ao litoral, muitos Berberes em direção ao interior,
e todos os ônibus se enroscando na disputa por cada metro quadrado.
No guiche de Essaouira, tive um papo muito bacana com o vendedor de
bilhetes. Conversamos sobre o turismo no pais, de que forma a dependência
pelo dinheiro dos visitantes afeta a vida do povo, desenvolve uma economia
altamente especulativa e cria muitas mentes corruptas, todos na busca por
mais uma moedinha de euro. Era um rapaz alto e magro, dos poucos que falavam
inglês por la, eu não me lembro seu nome... mas ele também não se lembra
do meu, então ficamos por isso mesmo.
As nove horas de uma manha ensolarada e poeirenta embarco rumo a Ouarzazate,
na viação mais barata. O ônibus era uma gaiola. Antes de entrar, porem,
tem sempre aquele sujeito super prestativo querendo te ajudar a guardar sua
mochila no bagageiro, so que nessa eu já estava escolado e sabia que iria
me custar uns 10 Dh. Nada feito. Já eram quase dez horas quando,
finalmente, começa a viagem, não pelo trafico, mas sim pelas pessoas
catadas pelo caminho - so pra sair da rodoviária foi quase meia hora! - e
eu, de havaianas, comendo poeira e suando como um porco, achei tudo isso
muito bom, demais!!
A viagem de Marrakesh a Ouarzazate é desgastante e simplesmente
maravilhosa. A paisagem seca e vermelha das montanhas, que parecem se
esfarelar como torrões de açúcar, contrastam com a neve eterna no topo da
cadeia Atlas. O sol forte e onipresente toma o espaço onde deveria haver
casas, gente, vida, coisas raras de se ver por ali. Os berberes, primeiro
povo de Marrocos, povoam as montanhas e o interior do pais, os desertos e as
dunas, regiões inóspitas como esse caminho, a margem, enquanto os árabes
se concentram nas principais cidades, reflexos de guerras antigas, coisas da
historia (qualquer semelhança com nossos morros e favelas é mera coincidência...)
A rodovia era tão sinuosa que parece entortar o mundo e em cada curva o
motorista buzinava para comunicar a nossa presença, precaução mais que
necessária diante da largura - ou estreiteza - da pista, depois de algumas
horas de fortes emoções chegamos em Ouarzazate, a "Hollywood do
Deserto"!
A cidade recebe esse titulo porque abriga um grande estúdio de cinema no
qual muitos filmes americanos foram rodados, como Lawrence das Arábias, por
exemplo. Alem disso, possui alguns Kasbahs, que são palácios reais
antigos. O problema é que para visitar qualquer uma das duas opções você
terá que pegar o bom e velho Grand Taxi e, como so turista visita esses
locais, os preços são tabelados nas alturas. No mais, a cidade não tem
nada de especial apesar do povo ser bem gentil, e o único fato digno de
nota foi, após ter pedido o Guia emprestado para um turista austríaco,
descobrir que a 50km dali, na minha direção, havia o Vale das Rosas e que
nessa época do ano esta totalmente florido! Não bastasse a decepção,
ainda levei uma cantada do austríaco gay, fala serio!! Desvantagens de não
ter um guia.
Depois de Ouarzazate, estava ansioso para encontrar algo interessante no meu
caminho em direção ao Deserto de Merzouga, já na fronteira com a Argélia.
Logo cedo, deixei a cidade rumo a Tinhir, na metade do caminho, para visitar
o Gorge do Todra. Os Gorges são formações rochosas que se estendem por
muitos metros acima do chão formando corredores e canions, também de cor
muito vermelha, alem dos de Tinhir, ha ainda os Gorges do Dades, algumas
cidades antes. Tinhir, alias, e uma cidade típica daquela região, se
desenvolve em torno de um vale de palmeiras, sinal de respeito a uma das
raras fontes de água e subsistência em muitos quilômetros, a cidade é
totalmente dependente da agricultura e, agora, dos turistas.
Conhecer os paredões do Todra, caminhar por aquela paisagem lunar e admirar
as diferentes plantas e pessoas que vivem por la, como a rosa verde de
varias pontas ou pastor de ovelhas que conduz seu rebanho sozinho morro
acima, foi uma experiência muito interessante, valeu mesmo. Sem falar que,
no caminho, joguei futebol duas vezes. O curioso e que fui convidado pra
jogar em árabe, aceitei em português e todo mundo se entendeu
perfeitamente. No outro dia, ao lado de François, francês que conheci no
ônibus, e Mustafa, berbere, companheiro inseparável de seu cachimbo com
kif, fui conhecer o interior do Vale das Palmeiras, um lugar fantástico,
pleno em vida, os pássaros cantam por todos os lados, os burricos relincham
em sinfonia e as pessoas, todos, homens, mulheres e crianças num trabalho
duro para aproveitar cada gota de água, com a construção de diques e
canais, arar a terra, plantar milho, figos, menta (eu nunca tinha visto uma
plantação de menta) e rezar para que a chuva venha... e venha apenas o
suficiente... e venha no momento certo. Uma dessas pessoas foi uma das mais
lindas criaturas que conheci em toda minha viagem, Mohammed. Esse marroquino
de sorriso fácil, pele castigada pelo sol e olhar vago, típico dos que
sofrem muito por toda a vida, era doce e querido por todos, logo que
chegamos fomos convidados por ele para comer no prato de sua própria família
o cuscuz mais delicioso que eu experimentei em Marrocos. Quando nos convidou
para ir a sua casa, por um momento temi que isso fosse mais um truque para
arrancar dinheiro de turistas. Não dessa vez. Mohammed nos mostrou sua
destilaria caseira, de onde extraia álcool de figos e de datt, o fruto da
palmeira, ambos deliciosos! Conhecemos sua família, tomamos chá, ouvimos
musica berbere e nos impressionamos com a habilidade que aquele homem sem um
braço tinha de enrolar seu cigarro. Quando Mohammed contou como ele perdeu
seu braço por conta de um estúpido erro medico, seus olhos caíram no
vazio e por alguns segundos seu sorriso deixou de brilhar. Você perde um
braço que custa metade do que sua família come, sacrifica sua mulher e
filhos a um trabalho ainda mais duro, mesmo que se esforce para dar tudo de
si, para ser o mesmo de antes, mas não e, por conta da negligencia e ignorância
de quem deveria curar e tudo isso te custa apenas alguns segundos de
sorriso...
Chega de tristeza! Depois, eu, Mustafa, Francois e Mohammed fomos a Tinhir
conhecer melhor a cidade, comer mais um tagine e jogar muita conversa fora.
Mustafa me deu bronca por comer com a mão esquerda (e difícil ser canhoto
em países muçulmanos), Mohammed deu risada e François deu cria porque o
seu Olimpique de Marseille perdia a partida na TV. Esse lugar e essa gente
deixaram saudade.
Próxima parada, Esperança! Ops, não era isso. Próxima parada, Merzouga e
suas dunas, camelos, tuaregs, enfim, o deserto!
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