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Marrocos: A chegada em
Marrocos foi cansativa mas também um alivio, isso porque apesar de
brasileiros não necessitarem visto, os oficiais de fronteira adoram
complicar nossa vida. O pais atiçava minha curiosidade, uma cultura não-ocidental,
primeiro contato direto com o Islamismo, comidas a musicas distintas, porta
de entrada da África, lugar de um povo amigável, hospitaleiro, forte e
esperto, muuuuito esperto. Tenha certeza, uma vez em Marrocos, você será
roubado, é quase sempre não usarão nenhuma outra arma a não ser a mais
poderosa, a palavra! No meu caso, me passaram a perna logo na entrada,
fazendo-me pegar um grand taxi sozinho, tive de pagar quase quatro vezes o preço
habitual. Antes de prosseguir, aqui vale uma explicação: o taxi,
diferentemente do que ocorre no Brasil, é acessível a todos e de papel
importante na rede de transporte. Existem dois tipos, o petit taxi, que
atuam dentro das cidades, e o grand taxi, uns Mercedoes 340 que, alem do
motorista, levam duas pessoas na frente e quatro atras, utilizado para
longas distancias. Logo, para os marinheiros de primeira viagem, se você
pega um grand taxi sozinho vai ter de pagar por todas as outras pessoas,
mane! Primeira parada, Tangier, a pérola do Oriente, no
extremo norte do pais, desde muito tempo encanta os europeus por seu
exotismo e proximidade, muitos decidiram viver por lá. Hoje, a cidade e
totalmente dependente do turismo e do trafico de drogas e imigrantes ilegais
para a Espanha. Em Tangier, tive o primeiro contato com pratos típicos
(como os Tagines e o Cuscuz, alem de pães deliciosos, hummm!) e com a
musica Gnaoua, manifestação de uma minoria religiosa diferente do
Islamismo, por muito tempo proibida. Tem suas origens semelhantes com o
nosso Candomble, pois também foi trazida por escravos da Africa
Sub-Saariana. Fui assistir a um show-jantar Gnaoua no interior da Medina, incrível!!!
Não deixe de ir, só tome cuidado com os espertalhões que tentam te vender
gato por lebre. Toda cidade marroquina e dividida em Medina, parte antiga de
antes da colonização francesa, e Ville Nouvelle, região mais nova e bem
mais cara, dos restaurante a acomodação. A primeira é sempre um espectáculo
a parte, onde a vida da cidade se manifesta, gente se empurrando por
ruazinhas estreitas (faz lembrar Granada), mercados, galinhas, vendedores
ambulantes, crianças, suco de laranja, um caos muito bem organizado. Em
toda a viagem por Marrocos tive a grande vantagem de me parecer com o povo,
uma vez sem a mochila e de bico calado, pude caminhar por todos os lugares
com tranquilidade, sem gente ao meu lado tentando vender coisas ou servir-se
de guia, e algo que as vezes cansa porque acontece o tempo todo onde quer
que você vá. Era divertidissimo ver a gente falando arabe comigo, alguns
nao entendiam que eu era turista e chegavam a pensar que eu era mudo. Em
Tangier, conheci, através de amigos franceses, uma das figuras mais
pitorescas de toda a viagem ate agora, Marmoud, um arabe gay, estilista e
operador de telemarketing da Telefonica, quando descobriu que eu era
brasileiro disparou a cantar ‘hilarilarie, O, O, O, é a turma da Xuxa que
vai dando seu alô’, sabia a letra de cor, figuraça!!
Minha última parada em Tangier foi uma associação
chamada Darna, que auxilia menores de rua e mulheres. É um contra-senso mas
as mulheres sofrem muito mais de abusos em Tangier, que esta próxima da
Europa e repleta de estrangeiros, que em outras cidades como Casablanca ou
Marrakesh. No caso dos meninos de rua, é muito complicado viver uma vida de
cão vendo todos os dias, ali do outro lado da praia, a menos de quinze
quilometros, o ‘paraiso’ chamado Espanha, e muitos tentam cruzar a
fronteira metendo-se nos eixos, entre as rodas dos caminhões – os que não
morrem no caminho acabam na criminalidade em Madri, Barcelona...
Problemas sociais a parte, de volta a viagem. Minha ideia
inicial era descer ate Marrakesh e dai ir para a costa, visitar Essaouira e
Agadir mas depois de uma visita decepcionante a Asilah (praia a 40 km de
Tangier) e da lembrança do litoral espanhol (praia mesmo e no Brasil,
Caribe...) mudei radicalmente os planos. No trem noturno de Tangier a
Marrakesh decidi que o negocio era ir para o centro do pais, ver os Gorges,
a cultura Berber e o deserto.
Em Marrakesh, depois de uma noite de muito baralho e
pouco sono na companhia de quatro mochileiros americanos, foi a vez de
conhecer o famoso mercado local, com suas especiarias e encantadores de
serpente. A cor vermelha das casas e o sol sempre presente esquentam as
cucas dos viajantes de todo o mundo e o mercado de Marrakesh se converte em
ponto de encontro das diferentes culturas e povos que habitam o pais, os árabes
do norte, de Fes e do sul, os Berbers dos Atlas, das montanhas Rifs, dos
desertos de Merzouga e Saara, o povo costeiro, todos se juntam nesse lugar
magico, de vida milenar, para vender seus produtos, dançar suas danças,
contar sua fabulas e encantar quem passa por ali. No cair da tarde a praça
se agita num ritmo frenético, tudo acontecendo ao mesmo tempo, serpentes
bailam ao som das flautas, um contador de historias, com suas caras e bocas,
fascina ate quem não entende uma palavra do que diz, um matemático escreve
no chão com giz e desafia a todos encontrar a solução, pessoas assistem
das varandas, regadas a chá de menta e musica, a fumaça das barracas de
comida toma conta, kafta, cabeça de cabra, brochette, caramujos no vapor,
mais chá, mais musica, cheiro de cumim e temperos orientais, couros, panos,
vidros, vida, muita vida. Dormi no terraço de um hotel, de cara com as
estrelas e torcendo para não chover, muito bom! Bem cedinho, acordei com a oração
isla (a primeira de cinco que todos os dias são entoadas do alto das
mesquitas) e fui fazer algumas compras. Ta em Marrocos? Pechinche! Para
tudo! Um véu por 30 dirhams, com um pouco de paciencia, se transformou em três
véus por 45 dirhams, curioso. Esta é a moeda oficial do pais, a cotação
e de 10,7 Dh para cada Euro (quase 3Dh para cada Real).
Caminhar pela cidade é bem interessante, ha muito o que
ver, alguns belos edifícios de arquitetura árabe e parques com jardins bem
cuidados. Sabia que é possível esquiar em Marrakesh??? Para mim foi
surpreendente mas ha uma estacão de esqui no topo da cadeia de montanhas
Atlas bem próximo a cidade, é uma opção barata e no mínimo original
para os que gostam desse tipo de esporte. Atracões que deixei para uma próxima
oportunidade: visitar as cascatas do Zud e escalar o Jebel Toubkal, uma
pena... esse negocio de ter só uma vida e complicado.
Finalmente, depois de mais um suquinho de laranja natural
(estava com muita saudade disso...), chegou a hora de partir rumo ao
interior do pais, literalmente para lá de Marrakesh! |