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  Brasil -Sábado, 04 de setembro de 2010 - Hora: 18:11

 
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Viagem pela Europa - Marrocos - Parte 1

Marrocos: A chegada em Marrocos foi cansativa mas também um alivio, isso porque apesar de brasileiros não necessitarem visto, os oficiais de fronteira adoram complicar nossa vida. O pais atiçava minha curiosidade, uma cultura não-ocidental, primeiro contato direto com o Islamismo, comidas a musicas distintas, porta de entrada da África, lugar de um povo amigável, hospitaleiro, forte e esperto, muuuuito esperto. Tenha certeza, uma vez em Marrocos, você será roubado, é quase sempre não usarão nenhuma outra arma a não ser a mais poderosa, a palavra! No meu caso, me passaram a perna logo na entrada, fazendo-me pegar um grand taxi sozinho, tive de pagar quase quatro vezes o preço habitual. Antes de prosseguir, aqui vale uma explicação: o taxi, diferentemente do que ocorre no Brasil, é acessível a todos e de papel importante na rede de transporte. Existem dois tipos, o petit taxi, que atuam dentro das cidades, e o grand taxi, uns Mercedoes 340 que, alem do motorista, levam duas pessoas na frente e quatro atras, utilizado para longas distancias. Logo, para os marinheiros de primeira viagem, se você pega um grand taxi sozinho vai ter de pagar por todas as outras pessoas, mane!

Primeira parada, Tangier, a pérola do Oriente, no extremo norte do pais, desde muito tempo encanta os europeus por seu exotismo e proximidade, muitos decidiram viver por lá. Hoje, a cidade e totalmente dependente do turismo e do trafico de drogas e imigrantes ilegais para a Espanha. Em Tangier, tive o primeiro contato com pratos típicos (como os Tagines e o Cuscuz, alem de pães deliciosos, hummm!) e com a musica Gnaoua, manifestação de uma minoria religiosa diferente do Islamismo, por muito tempo proibida. Tem suas origens semelhantes com o nosso Candomble, pois também foi trazida por escravos da Africa Sub-Saariana. Fui assistir a um show-jantar Gnaoua no interior da Medina, incrível!!! Não deixe de ir, só tome cuidado com os espertalhões que tentam te vender gato por lebre. Toda cidade marroquina e dividida em Medina, parte antiga de antes da colonização francesa, e Ville Nouvelle, região mais nova e bem mais cara, dos restaurante a acomodação. A primeira é sempre um espectáculo a parte, onde a vida da cidade se manifesta, gente se empurrando por ruazinhas estreitas (faz lembrar Granada), mercados, galinhas, vendedores ambulantes, crianças, suco de laranja, um caos muito bem organizado. Em toda a viagem por Marrocos tive a grande vantagem de me parecer com o povo, uma vez sem a mochila e de bico calado, pude caminhar por todos os lugares com tranquilidade, sem gente ao meu lado tentando vender coisas ou servir-se de guia, e algo que as vezes cansa porque acontece o tempo todo onde quer que você vá. Era divertidissimo ver a gente falando arabe comigo, alguns nao entendiam que eu era turista e chegavam a pensar que eu era mudo. Em Tangier, conheci, através de amigos franceses, uma das figuras mais pitorescas de toda a viagem ate agora, Marmoud, um arabe gay, estilista e operador de telemarketing da Telefonica, quando descobriu que eu era brasileiro disparou a cantar ‘hilarilarie, O, O, O, é a turma da Xuxa que vai dando seu alô’, sabia a letra de cor, figuraça!!

Minha última parada em Tangier foi uma associação chamada Darna, que auxilia menores de rua e mulheres. É um contra-senso mas as mulheres sofrem muito mais de abusos em Tangier, que esta próxima da Europa e repleta de estrangeiros, que em outras cidades como Casablanca ou Marrakesh. No caso dos meninos de rua, é muito complicado viver uma vida de cão vendo todos os dias, ali do outro lado da praia, a menos de quinze quilometros, o ‘paraiso’ chamado Espanha, e muitos tentam cruzar a fronteira metendo-se nos eixos, entre as rodas dos caminhões – os que não morrem no caminho acabam na criminalidade em Madri, Barcelona...

Problemas sociais a parte, de volta a viagem. Minha ideia inicial era descer ate Marrakesh e dai ir para a costa, visitar Essaouira e Agadir mas depois de uma visita decepcionante a Asilah (praia a 40 km de Tangier) e da lembrança do litoral espanhol (praia mesmo e no Brasil, Caribe...) mudei radicalmente os planos. No trem noturno de Tangier a Marrakesh decidi que o negocio era ir para o centro do pais, ver os Gorges, a cultura Berber e o deserto.

Em Marrakesh, depois de uma noite de muito baralho e pouco sono na companhia de quatro mochileiros americanos, foi a vez de conhecer o famoso mercado local, com suas especiarias e encantadores de serpente. A cor vermelha das casas e o sol sempre presente esquentam as cucas dos viajantes de todo o mundo e o mercado de Marrakesh se converte em ponto de encontro das diferentes culturas e povos que habitam o pais, os árabes do norte, de Fes e do sul, os Berbers dos Atlas, das montanhas Rifs, dos desertos de Merzouga e Saara, o povo costeiro, todos se juntam nesse lugar magico, de vida milenar, para vender seus produtos, dançar suas danças, contar sua fabulas e encantar quem passa por ali. No cair da tarde a praça se agita num ritmo frenético, tudo acontecendo ao mesmo tempo, serpentes bailam ao som das flautas, um contador de historias, com suas caras e bocas, fascina ate quem não entende uma palavra do que diz, um matemático escreve no chão com giz e desafia a todos encontrar a solução, pessoas assistem das varandas, regadas a chá de menta e musica, a fumaça das barracas de comida toma conta, kafta, cabeça de cabra, brochette, caramujos no vapor, mais chá, mais musica, cheiro de cumim e temperos orientais, couros, panos, vidros, vida, muita vida. Dormi no terraço de um hotel, de cara com as estrelas e torcendo para não chover, muito bom! Bem cedinho, acordei com a oração isla (a primeira de cinco que todos os dias são entoadas do alto das mesquitas) e fui fazer algumas compras. Ta em Marrocos? Pechinche! Para tudo! Um véu por 30 dirhams, com um pouco de paciencia, se transformou em três véus por 45 dirhams, curioso. Esta é a moeda oficial do pais, a cotação e de 10,7 Dh para cada Euro (quase 3Dh para cada Real).

Caminhar pela cidade é bem interessante, ha muito o que ver, alguns belos edifícios de arquitetura árabe e parques com jardins bem cuidados. Sabia que é possível esquiar em Marrakesh??? Para mim foi surpreendente mas ha uma estacão de esqui no topo da cadeia de montanhas Atlas bem próximo a cidade, é uma opção barata e no mínimo original para os que gostam desse tipo de esporte. Atracões que deixei para uma próxima oportunidade: visitar as cascatas do Zud e escalar o Jebel Toubkal, uma pena... esse negocio de ter só uma vida e complicado.

Finalmente, depois de mais um suquinho de laranja natural (estava com muita saudade disso...), chegou a hora de partir rumo ao interior do pais, literalmente para lá de Marrakesh!

 
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