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Apesar de imaginar que não
mais me surpreenderia com a Bélgica, outra vez ela me pregou uma peça. Longe
de ser um povo, no sentido estrito da palavra - conjunto de indivíduos que
falam a mesma língua, têm costumes e hábitos idênticos, afinidade de
interesses, uma história e tradições comuns - há praticamente dois países
num só: ao sul, os francófonos, ao norte, os flamingos. A rivalidade entre
esses dois povos é enorme e é impossível ignorar o assunto quando se visita
aquelas terras.
Louvain-la-Neuve, a cidade onde fiquei, foi mais um fruto dessa eterna
discussão. Lá pros anos 70, vários estudantes francófonos se dirigiam à
cidade de Leuven, flaminga, para realizar seus estudos numa das melhores
universidades do país. Acontece que as hostilidades com a população e com os
outros estudantes eram tão constantes - e por vezes violentas - que não
restou outra opção ao lado francófono senão criar uma outra universidade,
mais, uma outra cidade, para abrigar sua turma. O nome dado foi Leuven, a
Nova ou em francês, Louvain-la-Neuve. Projetada para dar prioridade aos
pedestres, menos de 30% das ruas são abertas aos carros, o que dá a
impressão de se estar vivendo num grande calçadão! Para mim, um conceito
totalmente novo, muito interessante e prato cheio para arquitetos e
urbanistas. Na residência estudantil onde fiquei, o Kot Carrefour, conheci
uma galera muito estudiosa e pouco hospitaleira, uma pontinha de decepção. Um grande abraço às exceções, Anne-Francoise, de português afiado e malas
prontas pro Brasil, Pacific, uma rainha africana de rara educação e Marc, o
homem das apresentações em inglês!
Durante uma semana, fiz do Kot Carrefour meu ponto de partida para incursões
ao interior belga, aproveitando-me do Go Pass, passe de trem que custa 40
euros e te dá direito a dez viagens dentro do território da Bélgica. A
primeira parada foi na charmosa Brugge, cidadezinha minúscula no tamanho mas
imensamente bela, retalhada de canais, lembra muito aqueles filmes
medievais, com suas casas e ruas de pedra, pontes, igrejas imponentes, com
torres imensas, tudo isso numa pequenina área, agora não mais cercada por
muralhas. Os amantes do chocolate e os amantes em geral vão se deliciar com
o ar bucólico e romântico de Brugge, onde tudo conspira para a
tranqüilidade, dos patinhos no lago às carruagens tradicionais, tudo muito
diferente de quando a cidade abrigava uma das maiores feiras do mundo na sua
Praça Maior (Grote Markt), lá nos séculos XIII e XIV. Uma coisa que me
chamou a atenção foi a legião de turistas velhinhos, quase uma orda
multinacional da turminha da bengala, caminhando por todos os lados, pelas
ruas, cafés, se empanturrando de chocolates. A maioria parecia já ter estado
por lá mais de uma vez. Sentado na praça central - e ainda rodeado de vovôs
- tive a oportunidade de trocar uma idéia com Marc August, um belga daquela
região, já com seus 40 anos, foi a primeira vez que ouvi o ponto de vista
dos flamingos sobre as animosidades entre eles e os francófonos, entre uma
cerveja de cereja e outra. Isso mesmo, cerveja de cereja, foi a única que
desceu sem arranhar a garganta. Marc, assíduo freqüentador de Fortaleza e
conhecedor da nossa cultura, muitas risadas, até logo, garoto!
De Brugge, após uma rápida passada pelo Kot, hora de conhecer um país de
dimensões continentais, Luxemburgo! Tudo bem, tudo bem, exagerei um pouco
mas se no tamanho Luxemburgo não é lá essas coisas, na conta bancária...
Como meu Go Pass só funcionava dentro dos limites belgas, tive de descobrir
qual era a cidade mais próxima da fronteira, a partir de onde começaria a
caronar. Pois a cidade fronteiriça de Arlon entrará para a história como o
marco inicial da mais bem-sucedida seqüência de caronas já documentada: de
lá até a cidade de Luxemburgo foram nada menos do que cinco, repito, agora
com maiúsculas, CINCO BMW´s com intervalos regulares de, no máximo, meio
segundo de espera entre uma e outra (acho que exagerei de novo...). Algo
para se orgulhar. Fatos como esse provam a existência da Providência Divina,
o mero acaso seria incapaz de tamanha perfeição.
O que aconteceu em Luxemburgo e os três dias surreais passados em Amsterdã
serão assunto dos próximos textos, não percam!
Até daqui a pouco!
Thiago de Sá |