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Bélgica: Você já
percebeu como a Bélgica é um país bizarro, ausente, quase um fantasma
geográfico? Não entendeu? Veja só, comecemos pelas línguas. No país,
fala-se o francês, o alemão e o flamengo (e isso lá é nome de idioma?)
que é quase um holandês. Ou seja, não existe o idioma belga. Os
chocolates do país estão entre os melhores do mundo mas o mundo não sabe
muito bem disso porque chocolate bom pra todo mundo é mesmo o suíço... Os
queijos belgas em nada devem aos franceses na qualidade e no sabor embora
isso seja um segredo que só os franceses conhecem. A economia do país é
uma das mais fortes na Europa sendo um dos líderes mundiais em lapidação
de diamantes (o quê?) e sede da Interbrew, terceira maior cervejaria do
mundo e dona da maior parte do capital da nossa Ambev. Aliás, eu aposto que
nenhum beberrão, mesmo os de carteirinha, seria capaz de dizer uma única
marca de cerveja belga, mesmo sendo a Bélgica o país com o maior número
de cervejas no mundo!
Ainda não se convenceu? Tudo bem. E se eu te disser que essa mesma nação
anônima de escondidos permeou toda a sua infância, da escola aos desenhos
animados? É uma surpresa atrás da outra! Os Smurfs, aqueles bichinhos
azuis que viviam em cogumelos e eram atazanados pelo Gargamel e seu gato
Cruel são, pasmem, belgas (lá, recebem o nome de Schtrumpfs!). O detetive
Tin Tin, que só conseguia desvendar os crimes graças ao seu astuto
cachorro Milu, também é uma criação do mesmo país, e até mesmo o Jordy
- aquele pivete que cantava em francês - hit do início dos anos 90, também
é cidadão belga. Do Show da Xuxa para os livros de história. A famosa
Região de Flandres, berço do capitalismo, e os campos de Waterloo, na qual
Napoleão, em posição duvidosa, foi derrotado pela última vez, não ficam
na França como poderiam imaginar os mais desavisados, pois fazem parte do
solo da Bélgica. Assim como essas, eu poderia me estender por páginas e páginas
enumerando todas as contribuições anônimas que essa nação altruísta
nos renegou embora prefira encerrar essa lista com uma singela pergunta: você
conhece algum belga? Com muito esforço, os amantes da pancadaria se lembrarão
de que Jean-Claude Van Dame nasceu ali antes de se naturalizar americano e
os fanáticos por futebol ressuscitarão Predoumme, goleiraço, ou ainda
Oliveira, melhor jogador belga de todos os tempos que, na verdade, é
brasileiro. Em suma, é um país perfeito pra se esconder da polícia e o
pior lugar do mundo para se estudar marketing. A Bélgica me faz lembrar o
Piauí nas palavras do Nelson Rodrigues.
Depois de ir a fundo nos subterrâneos da cultura (ou seria contra-cultura?)
belga, regressamos ao texto em si e caímos direto no centro de Bruxelas -
de que maneira essa materialização se deu só poucas testemunhas o sabem -
centro esse considerado um dos mais belos dentre todas as cidades européias
e que recebe um belíssimo tapete de flores todo ano, durante a primavera.
Como não era primavera, tive de me contentar com um postal. Ainda na praça
principal, é possível observar a Torre Central, altíssima, e a milimétrica
assimetria da sua base, razão que levou o arquiteto responsável a tirar a
própria vida, num ímpeto de perfeccionismo. Há poucas quadras dali fica a
fonte onde está a estátua do grande herói nacional, símbolo da reconstrução
do país durante tantas e tantas guerras, ele, o Meneken Pis, mais conhecido
como Moleque Mijão - não, isso não é uma piada - diz a lenda que,
durante um incêndio em Bruxelas, um menininho peladão foi visto fazendo
pipi nas chamas o que ajudou de maneira decisiva no combate às labaredas.
Verdade ou não, fato é que ele chama a atenção e está sempre rodeado de
turistas. Além da praça principal, do Meneken Pis e de um bar qualquer
onde você possa experimentar toda a fauna de cervejas belgas, Bruxelas é
uma cidade simples, arrumadinha e sem maiores atrativos. Você poderia
caminhar um pouco mais e visitar algum parque da cidade, o Palácio Real, a
famosa estátua do átomo gigante ou até mesmo os edifícios que servem de
sede para a OTAN e a União Européia (não, não vão te deixar votar...)
num esforço para encontrar alguma surpresa, algum atrativo esquecido - o
que no caso da Bélgica seria perfeitamente factível - mas a verdade é que
a cidade não vale mais do que dois dias de visita, a não ser que eles
estejam escondendo algo no subsolo.
A comunidade brasileira no país é grande e não raro é possível
encontrar rodas de capoeira e convites para aulas de samba. Dessa vez, ao
contrário de Londres e Lisboa, preferi não me integrar com os conterrâneos
e fui me alojar numa das residências estudantis da Universidade de
Louvain-la-Neuve, que fica na cidade de mesmo nome, a uma hora de Bruxelas.
É de lá que partirei para conhecer os Países Baixos. Em tempo, a ONU
acabou não me contratando, talvez porque a sede deles fique em Nova York e
não em Bruxelas... por outro lado, as negociações com a OTAN já estão
adiantadas, só falta definir que paiseco cheio de petróleo eles vão me
dar pra bombardear!
Até daqui a pouco!
Thiago de Sá |