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Espanha: "Buenos
dias, brasileño!", foram as boas-vindas do fiscal de fronteira
espanhol, enquanto revistava minha mochila, surpreso ao encontrar um
tupiniquim perdido por aquelas bandas. Recomposto da agradabilíssima
travessia do Estreito de Gibraltar, nada como apreciar a pequena e belíssima
cidade de Tarifa, que, apesar do nome, não tem nada a ver com o Geraldo
Alckmin. Tarifa é a última cidade ao sul da Espanha, onde os deuses,
maravilhados com a beleza da praia, decidiram depositar todos os ventos do
mundo ali, "o vento vem vindo de longe", e forças que antes
moveram fenícios, espanhóis e italianos hoje fazem a festa dos amantes de
Kitesurf, Windsurf e Parapent.
Depois de cruzar a cidade a pé até a rodovia, hora de rumar em direção a
Lisboa, a mais de 800 km dali. Bem, aí, os ventos de Tarifa decidiram não
soprar na minha direção e tive de esperar muito, mas muito mesmo, até que
ele, São Pepe - que não fazia parte do ataque dos sonhos, Pepe, Pelé e
Coutinho - me levasse até Cádiz. Pepe era um típico espanhol da
Andaluzia, gordo, bonachão, orgulhoso das suas festas religiosas, da sua
vocação agrícola e totalmente contrário à separação da Catalunha. Com
ele, aprendi um pouco mais sobre a cultura andaluz e a origem do "Toro
Negro" ou "Toro de España". Com certeza, muitos de vocês já
viram esse símbolo, a silhueta negra de um touro, encravado em bandeiras e
cartões postais, ou para os que já tiveram o prazer de ir à Espanha,
espalhados por todas as rodovias do país. Segundo Pepe, há muito tempo atrás,
uma cervejaria cujos donos também eram tradicionais criadores de touros,
espalharam a imagem por todo o país, sem nenhum slogan, apenas com o nome
da cerveja abaixo, numa genial jogada de marketing. A partir do aumento das
restrições à propaganda de álcool, o governo espanhol obrigou a
cervejaria a retirar todas as placas publicitárias das estradas mas teve de
recuar diante da comoção popular, que adorava "El Toro",
proibindo apenas a associação do nome da cerveja à imagem. Mesmo assim,
todos já vinculavam a cerveja ao touro e, por isso, a empresa decidiu
conservar as placas. Depois de algum tempo, com "El Toro" já nas
graças do povo, como um dos símbolos do país, o governo tombou os
outdoors como patrimônio cultural da Espanha e autorizou a cervejaria a
vincular seu nome como mantenedora oficial dos "Toros de España",
desde que se comprometesse a zelar pela conservação do símbolo por todo o
país. Além dessa história, muitas outras, de política a futebol,
rechearam a viagem até Cádiz.
Cádiz é uma cidade linda e foi uma pena não poder conhecê-la, mas não
pude recusar o "convite" do Pepe de me pagar a passagem até
Huelva, a caminho de Portugal. Foi o adeus desse espanhol com selo de
qualidade. Antes de Huelva, o ônibus fez uma parada em Sevilha, e como se
Sevilha soubesse que eu passava por ali, quis me presentear com sua maior
festa, a Féria, celebração religiosa na qual as moças se vestem com
cores vivas, rosas nos cabelos, castanholas nas mãos e dançam com seus
pares igualmente bem trajados, enquanto as famílias admiram, comem e se
divertem. E agora, o que eu faço? Aceito o presente de Sevilha ou continuo
rumo a Portugal? Não foi uma decisão fácil mas diante da multidão de fiéis
e da minha limitação de tempo - tinha comprado uma passagem de avião de
Madri a Bruxelas para dali a dez dias - preferi continuar o roteiro original
e conhecer a terrinha. Finalmente em Huelva, depois de mais um dia de
caronas e já quase na companhia da noite, achei melhor pegar um ônibus até
Lisboa - ledo engano - a última jardineira havia partido há mais de duas
horas! Resultado: como a cidade não é turística, as opções de hotéis
eram poucas, os preços estratosféricos e minha grana mais curta que o
cabelo do Ronaldinho, o jeito foi procurar um canto pra armar a barraca. Foi
aí que conheci um rapaz da minha idade, magro e tranqüilo, dessas pessoas
com bondade nos olhos, feitas por Deus com um pouco mais de capricho. Um
andarilho. Ele, que não quis mais viver o modelo dos pais e começou a
construir o seu rancho num terreno baldio, me disse para descansar por ali.
Curioso como nos afogamos na nossa própria ganância, facilmente perdemos a
capacidade de ajudar, cegos com o que temos, com medo da inveja alheia. E
com medo de perder o que temos é que nos perdemos, incapazes de ofertar a mão
a quem oferece ajuda. Foi uma noite alegre, dividimos nossa pouca comida,
ouvimos música no radinho de pilha e pensamos até em pegar emprestado um
calhambeque que estava abandonado numa rua próxima e fazer uma viagem pela
Sierra Morena, montanhas da região. Como não o vi na manhã seguinte (será
que foi pegar o carro?), deixei meu fogareiro como lembrança e segui meu
destino. Seu nome não me lembro mas as palavras não sairão da cabeça.
Quanto mais me aproximava de Portugal, mais difícil se tornava encontrar
carona, confirmando os avisos de que os lusitanos não são nada abertos a
esse tipo de atividade, e foi com uma bela dose de paciência que chego a
Vila Real de Santo Antonio, primeiro vilarejo do território português.
Enfim, terra do bacalhau, do fado e da principal inspiração para piadas no
Brasil, assunto do próximo texto. É golo pá!
Até logo,
Thiago de Sa |