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Portugal: Depois de tanto tempo
tentando me virar com as mais diversas línguas - inglês, catalão,
espanhol, francês, árabe, berbere! - dizer um simples "por favor,
onde fica a rodovia?" foi uma tarefa trabalhosa. Nunca o português foi
tão difícil. As palavras mais banais eram esquecidas, as frases se
atropelavam sem ritmo nem fluência e precisei de um certo tempo pra me
sentir menos retardado. Logo eu, que sempre achei um pouco de frescura
daquelas pessoas que se enrolam com o próprio idioma depois de algum tempo
de viagem! Em Vila Real de Santo Antonio, assim como em todo o Algarve, o
clima estava chuvoso - o que não combina nada com praia - e por isso,
depois de caronar um tempo em vão, peguei um ônibus até Lisboa,
aproveitando os preços muito mais em conta de Portugal. Lá na capital,
ficaria na casa de amigos do Edílson, brazuca nota dez que conheci através
do mochileiros.com, pois vivia em Lisboa mas tinha interesse de passar uma
temporada em Dublin. Como organização nunca foi o meu forte, me esqueci de
guardar com cuidado o papelzinho com seu número e tive de ir a um Internet
Café na esperança de encontrar o telefone dele em um dos meus e-mails. O gênio
aqui tinha deletado tudo. Sem o número, à noite, mais duro que canela de
zagueiro, já começava a procurar áreas verdes no mapa para mais uma noite
na barraca até que surgiu o Super Ângelo, carioca, divertido, terceiro
melhor levantador do mundo (atrás apenas de Maurício e Ricardinho) que me
fez relembrar como é boa a hospitalidade brasileira. Ao Ângelo e sua
turma, Manuel, Ricardo, Garçom, um grande abraço!
Lisboa é linda! Uma capital com ares de interior que preserva muito da
nossa própria história e reserva boas surpresas a cada bairro. Do centro
ao Bairro Alto, passando pela Praça do Rossio, cada vista é um deleite aos
olhos, seja de dentro de um tradicional bondinho amarelo seja do alto do
Elevador de Santa Justa, obra de Eiffel, o mesmo que assina a mais famosa
torre de Paris. Bodegas que lembram muito os botequins do nosso Brasil, com
cheiros e comidas, vinhos e temperos, recheiam a paisagem marítima dessa
cidade com vocação para ser bela, que ladrilha as fachadas das casas e
caminha por ruas e ladeiras com nomes conhecidos, como a Augusta ou a Boa
Vista, Praça Fernando Pessoa, Ponte Luis Vaz de Camões. Aqui também há
muitos brasileiros, uma comunidade imensa que disputa com os portugueses as
oportunidades de emprego e trazem consigo as caipirinhas, feijoadas, forrós
e sambas, para a alegria de visitantes como eu. Hoje, ao contrário de
antes, Portugal se parece uma extensão do Brasil, com a diferença de que a
gente de lá é mais sisuda, menos alegre. Infelizmente, os portugueses me
surpreenderam negativamente e a impressão que levo deles é a de pessoas
mal-educadas, brutas e inflexíveis. Talvez por isso os brasileiros se dêem
tão bem por lá, talvez seja justamente essa a razão de tanta
agressividade ou ainda porque beijar mulher de bigode e ser motivo de piada
não deve agradar ninguém. Como toda generalização incorre em erro e só
fiquei alguns dias no país, pode ser que minha impressão esteja
equivocada. Mesmo assim, a cidade é, ao lado de Barcelona, uma das mais
belas que visitei até agora.
Finalmente, depois de dois dias, consegui me encontrar com o Edílson que,
junto com a turma do Ângelo, me levou para conhecer o Parque da Expo, ao
norte da cidade. Ali, muitas construções futuristas, museus, teleférico,
de onde se podia ver todo o Pavilhão, churrascaria e um barzinho onde, numa
convidativa tarde de sol, de frente pra baía, pude apreciar a brisa do mar,
ouvir muitas músicas brasileiras e ver inúmeros casais de velhinhos
lisboetas se esbaldarem na dança, "...mais belos porque são de
Lisboa...", ao som da música símbolo da cidade. Depois dessa agradável
tarde foi a vez de ir a Cascais, parte da Grande Lisboa, conhecer a galera
que me hospedaria pelos próximos dias, amigos do Edílson. Na casa de
Cascais, mais uma vez me senti feliz por ser brasileiro e fazer parte dessa
família de jecas que brigam, fofocam e se adoram. Ao Beto, Rei da feijoada,
que com suas histórias me inspirou a comprar um fusca, Charles, "el
matador", apurado degustador de bebidas e Alemão, o mestre, futuro
governador de Santa Catarina, muito obrigado, sorte, seja lá onde estiverem
e churrasco na volta!
Uma rápida passada pelo Mosteiro dos Gerônimos, Torre de Belém e
Monumento dos Descobrimentos, hora de me apressar porque Madri não espera,
o caminho é longo e o tempo curto. Por que é que eu tive de comprar essa
passagem de Madri a Bruxelas? Deixo Lisboa e Cascais pra trás, feliz por
ter decidido ir até lá e com vontade de voltar. Última passagem pela
Espanha, Madri, o próximo texto chega já, já! |