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  Brasil -Quarta-feira, 10 de março de 2010 - Hora: 22:8

 
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Viagem pela Europa - Última passagem pela Espanha

Madri: Desde o momento em que comprei aquela bendita passagem de Madri a Bruxelas pela internet lá em Marrocos, todo o trecho seguinte da viagem ficou mais corrido, e de uma tal forma que me senti esgotado ao final dos dias em Lisboa, por isso, decidi pegar um ônibus noturno de Portugal até Madri, tanto para descansar quanto para aproveitar mais um dia na capital espanhola (o dia que gastaria caronando). Dessa vez, já escaldado, tinha anotado muito bem todos os dados do lugar onde ficaria - a casa de uma amiga do Ricardo, uma belga chamada Maribel - o que não adiantou de nada porque Maribel trabalhava até o fim da tarde. Sem problemas. Deixei a mochila na rodoviária e fui conhecer a cidade.
Fazia apenas um mês e meio que os atentados haviam ocorrido em Madri e isso ainda alterava a fisionomia de todos por la, apesar dos esforços em se levar uma vida normal, em continuar sendo hospitaleiros, gentis, sorridentes. No metrô, um silêncio ensurdecedor, avisos em vão, "cuidado com sua mochila", nada se movia. Parei na Estação de Atocha, para ir ao Museu Reina Sofia. Atocha, principal entroncamento dos trilhos e primeiro alvo dos terroristas, era um grande canteiro de obras, cercada por tapumes, repleta de máquinas e flores, de dores, bilhetes, desenhos de criança e uma chuva que lavava tudo e deixava tudo ainda mais triste. Como, para mim, a curiosidade mórbida dos desastres não ajuda nem constrói, não me ative por ali, fui visitar o Reina Sofia. Com seus elevadores externos e envidraçados, o lugar já começa bonito pelo prédio; lá dentro, obras de Picasso, Miró (sou eu ou todas as obras do Miró são parecidas?), Dalí e algumas poucas de artistas brasileiros. O ponto alto foi ver, frente a frente, ela, Guernica, aquela mesma pintura que ilustrava a capa do meu livro da 5º série e que retrata os horrores do massacre do vilarejo de Guernica, durante a II Guerra Mundial. Saindo do Reina Sofia, segui em direção ao centro, para conhecer outros sítios, como a Plaza Maior e seu prédio de paredes pintadas, as lojas de jamón serrano - o melhor presunto do mundo - e alguns monumentos. No caminho de volta, encontrei um ônibus onde se podia doar sangue para repor os estoques perdidos em decorrência dos atentados. Como há muito tempo não fazia isso (na Irlanda brasileiros não são aceitos como doadores por conta do risco da Doença de Chagas, é mole?), e ainda intrigado com a restrição irlandesa, resolvi tentar. Quando descobriu que eu era brasileiro, a primeira pergunta do doutor espanhol foi: "quantos anos da sua vida você morou na zona rural e em caso afirmativo sob que condições?". Pronto, o risco deste ser urbano que vos fala ter sido beijado por um besouro barbeiro cai para quase zero e só mesmo a ignorância dos cabeções irlandeses para fazê-los recusar o nosso doce néctar, o sangue tupiniquim, capaz de ressuscitar até os mais mortos e explodir os mais fortes corações europeus. Verdade é que nunca recebi tanta atenção numa doação, uma demonstração genuína de carinho, pelo amor a uma cidade coberta de memórias e unida num momento tão difícil. A todas as enfermeiras anônimas, um beijo.
Os nomes das ruas de Madri são dispostos em azulejos e sempre acompanhados de uma pintura relacionada, algo sempre muito delicado, bem feito, às vezes divertido, a cara da cidade. E foi justamente enquanto eu observava os azulejos da Calle de Leon (Rua do Leão) que algo surreal aconteceu. Lá no final da rua, observei um vulto que a primeira vista não me parecia estranho, por um momento vi minha própria imagem, mochila nas costas, roupas velhas, todo molhado e com cara de sonso, e até que a descrição caia como uma luva não fosse eu estar vendo não um espelho mas sim outra pessoa, em carne e osso e gratidão, era ninguém menos que aquele amigo de Huelva que me deu abrigo na hora do aperto! Por pura coincidência, ou presente divino, tive a oportunidade de agradecê-lo mais uma vez e abraçá-lo, antes que nossos caminhos se separassem de novo. Para onde ele ia eu não faço idéia mas tenho certeza que estava no caminho certo (que me perdoe Raul Seixas).
Madri tem muitos encantos, suas ruas, seus prédios e praças, tudo encena um charme aristocrata sem com isso ser pedante. Alamedas, exposições, monumentos, dos lugares pelos quais passei, da central dos Correios aos jardins do Rei Juan Carlos, todos tinham um brilho singular e seria muito difícil escolher o mais belo, a capital espanhola merece ser conhecida com calma e a pé, porque é caminhando que se desenvolve a velocidade ideal para os olhos. Se dentre os lugares escolher um é impossível, é certo que o que Madri tem de mais bonito é seu povo. Os senhores e senhoras bem trajados, de couros e perfumes, sorriso tranqüilo e hospitalidade fora do comum, se embaralhavam nas ruas com uma juventude ativa e bonita, boa de cabeça e decisiva na recuperação da cidade. A demonstração de força que vi naquelas pessoas foi um dos momentos mais emocionantes de toda a viagem. Força de caminhar em paz e feliz, mesmo que nos olhares de cada um se pudesse ver uma dor sem igual, uma revolta muda, a vontade de praguejar, explodir, irar, mas contra quem, contra o quê? É difícil indignar-se contra algo tão vazio quanto a bestialidade humana. Por vezes, alguns se surpreendiam com seus próprios medos e lembranças, e sentavam-se na calçada para chorar, quietinhos, antes de chegar no trabalho. As marcas de dor ainda eram profundas enquanto estive ali, mas o sentimento de vingança contra um inimigo inexistente só seria o caminho para mais miséria, mais tristezas e desespero. Numa noite alegre de bar, depois de já ter tomado algumas e se sentir mais livre dos seus fantasmas, um jovem madrilenho, Raul, que havia perdido um tio no desastre, me disse o seguinte: "o pior, o mais difícil é ter que admitir que todos nós, espanhóis, somos os maiores responsáveis pelo que aconteceu e por isso temos uma parcela de culpa em cada uma das mortes dos nossos vizinhos e parentes. Se alguém aponta uma arma na cabeça de outro decidido a matar e você tem o poder de pará-lo o que deve fazer? Levantar um cartaz e dizer que é contra? Não bastou ser contra o Aznar, não basta ir às ruas contra as decisões do governo que você elegeu e que decide não agir de acordo com os interesses da maioria, é preciso pará-lo e fazer o que é certo!". Uma dura lição que o belo povo de Madri luta para aprender. Uma pena que nem todos os povos do mundo tenham essa grandeza.

Aquele forte abraço aos madrilenhos e meu último adeus à Espanha - porém não definitivo - hora de pegar o bendito avião e seguir para Bruxelas, a sede da Organização das Nações Desunidas, onde homens sérios e competentes decidem o futuro do planeta, quem sabe eles não me contratam?

Até logo,

Thiago de Sá

 
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