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Madri: Desde o momento em que
comprei aquela bendita passagem de Madri a Bruxelas pela internet lá em
Marrocos, todo o trecho seguinte da viagem ficou mais corrido, e de uma tal
forma que me senti esgotado ao final dos dias em Lisboa, por isso, decidi
pegar um ônibus noturno de Portugal até Madri, tanto para descansar quanto
para aproveitar mais um dia na capital espanhola (o dia que gastaria
caronando). Dessa vez, já escaldado, tinha anotado muito bem todos os dados
do lugar onde ficaria - a casa de uma amiga do Ricardo, uma belga chamada
Maribel - o que não adiantou de nada porque Maribel trabalhava até o fim
da tarde. Sem problemas. Deixei a mochila na rodoviária e fui conhecer a
cidade.
Fazia apenas um mês e meio que os atentados haviam ocorrido em Madri e isso
ainda alterava a fisionomia de todos por la, apesar dos esforços em se
levar uma vida normal, em continuar sendo hospitaleiros, gentis,
sorridentes. No metrô, um silêncio ensurdecedor, avisos em vão,
"cuidado com sua mochila", nada se movia. Parei na Estação de
Atocha, para ir ao Museu Reina Sofia. Atocha, principal entroncamento dos
trilhos e primeiro alvo dos terroristas, era um grande canteiro de obras,
cercada por tapumes, repleta de máquinas e flores, de dores, bilhetes,
desenhos de criança e uma chuva que lavava tudo e deixava tudo ainda mais
triste. Como, para mim, a curiosidade mórbida dos desastres não ajuda nem
constrói, não me ative por ali, fui visitar o Reina Sofia. Com seus
elevadores externos e envidraçados, o lugar já começa bonito pelo prédio;
lá dentro, obras de Picasso, Miró (sou eu ou todas as obras do Miró são
parecidas?), Dalí e algumas poucas de artistas brasileiros. O ponto alto
foi ver, frente a frente, ela, Guernica, aquela mesma pintura que ilustrava
a capa do meu livro da 5º série e que retrata os horrores do massacre do
vilarejo de Guernica, durante a II Guerra Mundial. Saindo do Reina Sofia,
segui em direção ao centro, para conhecer outros sítios, como a Plaza
Maior e seu prédio de paredes pintadas, as lojas de jamón serrano - o
melhor presunto do mundo - e alguns monumentos. No caminho de volta,
encontrei um ônibus onde se podia doar sangue para repor os estoques
perdidos em decorrência dos atentados. Como há muito tempo não fazia isso
(na Irlanda brasileiros não são aceitos como doadores por conta do risco
da Doença de Chagas, é mole?), e ainda intrigado com a restrição
irlandesa, resolvi tentar. Quando descobriu que eu era brasileiro, a
primeira pergunta do doutor espanhol foi: "quantos anos da sua vida você
morou na zona rural e em caso afirmativo sob que condições?". Pronto,
o risco deste ser urbano que vos fala ter sido beijado por um besouro
barbeiro cai para quase zero e só mesmo a ignorância dos cabeções
irlandeses para fazê-los recusar o nosso doce néctar, o sangue tupiniquim,
capaz de ressuscitar até os mais mortos e explodir os mais fortes corações
europeus. Verdade é que nunca recebi tanta atenção numa doação, uma
demonstração genuína de carinho, pelo amor a uma cidade coberta de memórias
e unida num momento tão difícil. A todas as enfermeiras anônimas, um
beijo.
Os nomes das ruas de Madri são dispostos em azulejos e sempre acompanhados
de uma pintura relacionada, algo sempre muito delicado, bem feito, às vezes
divertido, a cara da cidade. E foi justamente enquanto eu observava os
azulejos da Calle de Leon (Rua do Leão) que algo surreal aconteceu. Lá no
final da rua, observei um vulto que a primeira vista não me parecia
estranho, por um momento vi minha própria imagem, mochila nas costas,
roupas velhas, todo molhado e com cara de sonso, e até que a descrição
caia como uma luva não fosse eu estar vendo não um espelho mas sim outra
pessoa, em carne e osso e gratidão, era ninguém menos que aquele amigo de
Huelva que me deu abrigo na hora do aperto! Por pura coincidência, ou
presente divino, tive a oportunidade de agradecê-lo mais uma vez e abraçá-lo,
antes que nossos caminhos se separassem de novo. Para onde ele ia eu não faço
idéia mas tenho certeza que estava no caminho certo (que me perdoe Raul
Seixas).
Madri tem muitos encantos, suas ruas, seus prédios e praças, tudo encena
um charme aristocrata sem com isso ser pedante. Alamedas, exposições,
monumentos, dos lugares pelos quais passei, da central dos Correios aos
jardins do Rei Juan Carlos, todos tinham um brilho singular e seria muito
difícil escolher o mais belo, a capital espanhola merece ser conhecida com
calma e a pé, porque é caminhando que se desenvolve a velocidade ideal
para os olhos. Se dentre os lugares escolher um é impossível, é certo que
o que Madri tem de mais bonito é seu povo. Os senhores e senhoras bem
trajados, de couros e perfumes, sorriso tranqüilo e hospitalidade fora do
comum, se embaralhavam nas ruas com uma juventude ativa e bonita, boa de
cabeça e decisiva na recuperação da cidade. A demonstração de força
que vi naquelas pessoas foi um dos momentos mais emocionantes de toda a
viagem. Força de caminhar em paz e feliz, mesmo que nos olhares de cada um
se pudesse ver uma dor sem igual, uma revolta muda, a vontade de praguejar,
explodir, irar, mas contra quem, contra o quê? É difícil indignar-se
contra algo tão vazio quanto a bestialidade humana. Por vezes, alguns se
surpreendiam com seus próprios medos e lembranças, e sentavam-se na calçada
para chorar, quietinhos, antes de chegar no trabalho. As marcas de dor ainda
eram profundas enquanto estive ali, mas o sentimento de vingança contra um
inimigo inexistente só seria o caminho para mais miséria, mais tristezas e
desespero. Numa noite alegre de bar, depois de já ter tomado algumas e se
sentir mais livre dos seus fantasmas, um jovem madrilenho, Raul, que havia
perdido um tio no desastre, me disse o seguinte: "o pior, o mais difícil
é ter que admitir que todos nós, espanhóis, somos os maiores responsáveis
pelo que aconteceu e por isso temos uma parcela de culpa em cada uma das
mortes dos nossos vizinhos e parentes. Se alguém aponta uma arma na cabeça
de outro decidido a matar e você tem o poder de pará-lo o que deve fazer?
Levantar um cartaz e dizer que é contra? Não bastou ser contra o Aznar, não
basta ir às ruas contra as decisões do governo que você elegeu e que
decide não agir de acordo com os interesses da maioria, é preciso pará-lo
e fazer o que é certo!". Uma dura lição que o belo povo de Madri
luta para aprender. Uma pena que nem todos os povos do mundo tenham essa
grandeza.
Aquele forte abraço aos madrilenhos e meu último adeus à Espanha - porém
não definitivo - hora de pegar o bendito avião e seguir para Bruxelas, a
sede da Organização das Nações Desunidas, onde homens sérios e
competentes decidem o futuro do planeta, quem sabe eles não me contratam?
Até logo,
Thiago de Sá |