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Os aventureiros que desculpem, mas hoje, nada de ser turista
acidental neste país Argentina. Na véspera de voltar ao Brasil, a idéia é de se
desfazer docentro de Buenos Aires tomando um ônibus que segue por um viaduto de
mais de dez quilômetros e dali de cima, tirar fotos das cúpulas dos prédios. |
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Primeiramente fazer perguntas, se encher de informações, depois
tomar o devido ônibus e... Surpresa! Hum, hum, cheiro de ônibus errado. |
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Como administrar um fim de tarde que começa masoquista? A primeira
coisa é se entrosar com os passageiros e depois se for o caso, dizer ao
motorista que é sócio da empresa e procurar desviar a rota do veículo para
encontrar o caminho certo. A condução segue acelerada para a cidade de La Plata
e a noite se apressa em chegar para tornar mais dramática a ocasião. |
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Paisagem verde, asfalto exemplar, floresta. De uma hora para outra,
muda de rural para urbano e aparece a cidade de La Plata. O motorista não entra
na rodoviária, algumas quadras depois chega à estação de trem e ainda ensina
como voltar pra Buenos Aires. A estação de ferro carril dessa pequena cidade é
um colosso, porém desprezada. Ela mostra o passado rico da Argentina. |
A volta pra casa vai ser mais tarde, antes disso dá tempo de
explorar a
vizinhança. Uma casa de frutas ainda está aberta e na hora de pagar não
existe impasse porque o preço é permitido. Maçãs, ameixas e as ganhadoras da
simpatia de qualquer pessoa, as deliciosas cerejas de Mendoza! Três restaurantes
peculiares, naturalmente que um não escapa e o garçom coloca na mesa um exagero
de bife com batatas fritas. A carne e o trigo argentinos são dignos do respeito
de qualquer estrangeiro. |
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Mais na frente, na esquina da estação, uma banca apinhada de
revistas e um funcionário que recepciona bem. Ele tem o filme "La Noche de Los
Lápices". Que capacidade o mundo tem pra dar voltas! Tantos dias a procura dessa
fita e, justamente ela está em oferta na cidade onde aconteceu a história
aterradora. Esta foi a resposta exata por ter pegado o ônibus errado. |
Ainda falta uma hora para o trem transmitir o seu apito de partida.
Sem
dúvida que é enfadonho esperar até as 11 da noite! Para combater o cansaço, uma
boa conversa. Um pedreiro com um livro de Jorge Luis Borges fala sobre filosofia.
Ele esclarece coisas sobre a vida e, por espantar, é melhor escrever as suas
frases num papel qualquer. Um trabalhador que é uma universidade aberta. Neste
momento as pessoas já têm a liberdade de entrar no trem. A maior beleza é na
hora de pagar a passagem, um peso e cinqüenta centavos que equivale a um real.
Dessa maneira, todos têm o direito de ir e vir, mesmo que seja para longe. |
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O trem pega o beco. Sentado ao lado do pedreiro que é psicólogo,
etnólogo, filósofo, antropólogo, sociólogo e mais uns cem títulos dentro do
bolso, menos o de político. Alguns vagões estão escuros, o trem pára justamente
na floresta. Acontecimento sem importância para os argentinos. Dá pra lembrar
algo de pessoas fazendo arrastão vindo dos vagões ou da floresta. Alguns minutos
passam e a conversa dos passageiros segue normalmente. Por ter conhecido o país
antes, já sabia dessa segurança e amadurecimento da sociedade. |
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O pedreiro desce na quinta estação e uma hora depois, o entusiasmo
de voltar pra Buenos Aires. |
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Estação Constituição, quase uma da madrugada. Passos sincronizados
pelas ruas até a parada do ônibus. Mesmo nas horas tardias, os argentinos são
carentes por fila e pode ter apenas um na calçada, quem chega não vê outra
possibilidade que não seja a de ficar em fila indiana. |
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Finalmente o hotel, e nunca mais dizer que o dia será como se imagina, pois os
ônibus errados transformam a viagem num espetáculo à parte e está aí o resultado. |
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Edmilson Vieira, é artista plástico e escreve crônicas.
dnv01@hotmail.com
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