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  Brasil -Terça-feira, 06 de janeiro de 2009 - Hora: 18:14

 
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Cortázar

  

   O verão em Buenos Aires é desfavorável pra qualquer pessoa. Tem gente que chega a preferir uma explosão nuclear da Coréia do Norte. Aliás, a do Irã sim, poderia ser mais fria do que o ar do Rio da Prata. Pra fugir do calor, a regra é sair correndo e procurar abrigo num local com ventilação ou ar condicionado. Mas também não precisa romper com a cidade e se mandar pra Mar del Plata ou Santa Catarina. Dançar tango, nem pensar e muito menos, se conformar com o suor!
   Quantos obstáculos, quanta mão-de-obra, quantos delírios por conta de um clima abafado!
   Reclamar ou ter idéia superficial não adianta, mas existe uma saída honrosa: agendar um tempo qualquer na Confeitaria London, na esquina da famosa Avenida de Mayo e Rua Peru. O interesse em visitar o lugar, não é só por causa da relação pessoa x sensação térmica, é também compartilhar a confeitaria com o escritor Julio Cortázar (1914-1984), que chegou, sentou e escreveu partes da obra-prima, Os Prêmios. A confeitaria não esconde essa façanha e anuncia nas vitrines através de fotos e cartazes, esperando que ao ocupar suas mesas, o sentimento do livro aconteça em cada um dos leitores.
   Paulatinamente, a alma do filho ilustre belga/argentino poderia chegar, mas o público sentado conversa, e, a rede que vai tecendo atrapalha qualquer processo de integração do ser humano com Cortázar.
   Lá vem novamente o garçom, gentil com estrangeiros e peça fundamental para o sucesso da confeitaria. Ele atende e, ao mesmo tempo, atrapalha a possibilidade de contato com o escritor. Se pelo menos a mesa fosse redonda, já ajudaria, mas quadrada...
   Manhã perdida. Chega o meio-dia e nada, nem rumores do autor argentino. O negócio é voltar à noite com um bandoñon e esperar aquele que abandonou o seu lugar preferido.
   E assim, a visita aconteceu com excesso de tentativas de diálogo. Da mesa da Confeitaria London, fomos especialmente às nuvens, sonhar com o gênio que repousa em Paris, e nós, sem sucesso na investida, voltamos ao calor da rua e da vida real, decepcionados com o método fraco da abordagem.
   Questiona-se agora, se caso Cortázar tivesse aparecido para passar o recado (a técnica usada ninguém teria como descobrir), o calor da emoção que iria provocar seria bem maior do que a gravidez atômica da Coréia e do Irã juntos.

  

Edmilson Vieira, é artista plástico e escreve crônicas. dnv01@hotmail.com  

  

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