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O verão em Buenos Aires é
desfavorável pra qualquer pessoa. Tem gente que chega a preferir uma explosão
nuclear da Coréia do Norte. Aliás, a do Irã sim, poderia ser mais fria do que o
ar do Rio da Prata. Pra fugir do calor, a regra é sair correndo e procurar
abrigo num local com ventilação ou ar condicionado. Mas também não precisa
romper com a cidade e se mandar pra Mar del Plata ou Santa Catarina. Dançar
tango, nem pensar e muito menos, se conformar com o suor! |
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Quantos obstáculos, quanta mão-de-obra, quantos delírios por conta
de um clima abafado! |
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Reclamar ou ter idéia superficial não adianta, mas existe uma saída
honrosa: agendar um tempo qualquer na Confeitaria London, na esquina da famosa
Avenida de Mayo e Rua Peru. O interesse em visitar o lugar, não é só por causa
da relação pessoa x sensação térmica, é também compartilhar a confeitaria com o
escritor Julio Cortázar (1914-1984), que chegou, sentou e escreveu partes da
obra-prima, Os Prêmios. A confeitaria não esconde essa façanha e anuncia nas
vitrines através de fotos e cartazes, esperando que ao ocupar suas mesas, o
sentimento do livro aconteça em cada um dos leitores. |
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Paulatinamente, a alma do filho ilustre belga/argentino poderia
chegar, mas o público sentado conversa, e, a rede que vai tecendo atrapalha
qualquer processo de integração do ser humano com Cortázar. |
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Lá vem novamente o garçom, gentil com estrangeiros e peça
fundamental para o sucesso da confeitaria. Ele atende e, ao mesmo tempo,
atrapalha a possibilidade de contato com o escritor. Se pelo menos a mesa fosse
redonda, já ajudaria, mas quadrada... |
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Manhã perdida. Chega o meio-dia e nada, nem rumores do autor
argentino. O negócio é voltar à noite com um bandoñon e esperar aquele que
abandonou o seu lugar preferido. |
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E assim, a visita aconteceu com excesso de tentativas de diálogo.
Da mesa da Confeitaria London, fomos especialmente às nuvens, sonhar com o gênio
que repousa em Paris, e nós, sem sucesso na investida, voltamos ao calor da rua
e da vida real, decepcionados com o método fraco da abordagem. |
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Questiona-se agora, se caso Cortázar tivesse aparecido para passar
o recado (a técnica usada ninguém teria como descobrir), o calor da emoção que
iria provocar seria bem maior do que a gravidez atômica da Coréia e do Irã
juntos. |
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Edmilson Vieira, é artista plástico e escreve crônicas.
dnv01@hotmail.com
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