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Era sábado
e ia acontecer uma partida de futebol sem comparação na história
de Bremen. Justamente o time da cidade ia competir. Eles queriam abocanhar a
taça da final do campeonato nacional da Alemanha. Os indivíduos alemães
bremenianos passaram o dia sob efeito de sedativos para poder suportar
a ansiedade e a isquemia cerebral arterítica antibiótica dos nervos
fracos.
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Uma quantidade de torcedores
vestia camisetas coloridas e conseguiu mudar a fisionomia do centro da cidade.
Eram grupos sedentos de goleada rumando em direção ao estádio. Foi a primeira
manifestação futebolística que vi depois de semanas na Alemanha. A confusão fez
lembrar a euforia dos brasileiros quando enfrentam os adversários argentinos.
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Parece que em qualquer lugar do
mundo, os torcedores são frutos de uma mesma raiz: gritam, desfraldam bandeiras
e costumam correr pelas ruas querendo quebrar o que encontram pela frente, menos
os juros altos.
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Já que faço pouco-caso com futebol, o meu amigo alemão
Carlos Zülck se limitou a explicar a importância da partida e disse que a
comemoração ia ser grande se o time da casa ganhasse.
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Voltamos ao apartamento, já passava das
dez horas da noite. O dia ainda não tinha escurecido no verão europeu. O
sol, por puro exibicionismo achava que era importante o suficiente pra ficar até
tarde e só ia se pôr às onze da noite... Mais, mais, ele invade até perto da
madrugada. Se você nunca viu, quando tiver a oportunidade, vai se surpreender
com tal fenômeno lingüístico.
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A partida tinha acabado e
reencontramos os torcedores vindos do estádio. Passavam em carros e ônibus
superlotados, mas a alegria não estava evidente, não existia uma só
pessoa inquieta ou pelo menos contando as jogadas por celular para um amigo que
não pôde ir ao estádio do Boca Júnior de Bremen. Se o time ganha e não
comemoram, o que estava acontecendo de mais importante naquele momento? Nada
de festa, nada de carreata. Nesses casos, ou o mundo está louco, ou
estou eu. Aí volto a consultar o especialista: o amigo Zülck disse que a
vitória foi bonita, e como estava passando das dez da noite, não podiam mais
comemorar, mesmo o dia estando claro. Contou que uma vez o governo da Alemanha
resolveu dar uma de "bonzinho para o consumidor" e liberou a comemoração
até chegar a madrugada, isso foi no dia em que se tornaram campeões da Copa do
Mundo.
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A proibição é para
proteger o ouvido das outras pessoas. Se alguém for contra a lei, a polícia
fabrica a multa na hora e dá de presente ao infrator. A democracia
pode ser um programa ou remédio, com reações adversas, que acompanha
até mesmo o convívio do futebol. A regra multivitamínica que permite
ganhar o jogo é a mesma que proíbe transferir gritos e buzinadas para o
placar das ruas.
É só questão de hora,
depois das dez da noite não, por favor.
Mas nem um pulinho, governo alemão?
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Edmilson Vieira, é artista plástico e escreve crônicas.
dnv01@hotmail.com
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