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  Brasil -Terça-feira, 06 de janeiro de 2009 - Hora: 6:37

 
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Uruguai

   Se um dia você for classificar os países por categoria, inclua o Uruguai na lista dos mais tranqüilos, isso conseqüentemente quer dizer que o mundo terá uma reserva de paz, bem ao sul da América.

   Pra início de conversa, vamos ver o que se pode apregoar sobre essa terra: em Montevidéu, a condição da natureza é de 1,6 bilhões de pés de eucaliptos enfeitando a periferia. Cenário ecológico espalhado desde perto da beira mar até o subúrbio mais distante. É presença marcante aos olhos daqueles que chegam à cidade.
   Sobre o trânsito, pode-se dizer que o risco de ser atropelado no centro da capital é mínimo. Os senhores motoristas são peritos em respeitar os pedestres. Não é necessário viver numa eterna fuga na hora de atravessar uma avenida.
   Já a ditadura militar não foi nada educada, mergulhou o país nas trevas, e isso não é novidade, quem é da América Latina sabe que a prática foi tradição. Os homens verde oliva cumpriram tarefa de perseguir indivíduos para que perdessem a dignidade ou a vida. Aproveitaram pra fazer um trabalho parecido com a política de Hitler de destruição das minorias. Com o decreto do estado de sítio chegavam ao absurdo de apagar as luzes dos bairros, isolavam as quadras pra fazer a batida e aí entravam nas casas sem pedir licença. Se uma pessoa fosse fazer visita a um parente ou amigo e permanecesse até à noite, o passeio seria considerado crime; a turnê tinha como resultado a prisão e aí virou uma das formas da tragédia dos desaparecidos. A insanidade de alguns subordinou o povo ao auto-isolamento.
   "Caminhando e cantando" na Praça Cachangue, no centro de Montevidéu, mas de repente, um coletivo fazendo manifestação semanal contra os desaparecimentos. Conheci Alejandra, jovem uruguaia. Noutro dia em sua casa, sua mãe fez um relatório, contou que certa vez na época da ditadura, estava na casa dos parentes com as duas filhas pequenas em um passeio saudável de domingo e pra retornar, pediu a contribuição da sobrinha de 16 anos. Na hora que chegaram em casa, começou a batida do exército. A menina mais nova agarrou-se aos braços da mãe e embutiu o choro, só fazia soluçar e olhar para as armas apontadas. Eles encontraram a sobrinha e a reunião civil/militar começou naquele momento. A pauta dizia que cada pessoa era obrigada a mostrar o comprovante de residência. Viram que ela era de outro endereço e em decorrência da situação, a estrutura repressiva estava pronta para recebê-la de braços fechados. Levaram a infância. Como era início da ditadura, advogado ainda podia fazer alguma coisa e a família nomeou um. Reconhecido ou não o erro, uma semana depois a menina adolescente livrou-se do corredor da morte. Ela teve de deixar o país. É lógico que os generais uruguaios eram "os laranjas", os americanos estavam por trás do golpe e achando pouco, enviaram professores de tortura. O nome de um deles, Dan Mitrione, veja o filme Estado de Sítio, de Costa Gavras ou o livro "A Face Oculta do Terror". Mas como nenhum império consegue sustentação por toda a vida, mesmo que seja à base de propinas... Blém, caiu!
   E no passado, como era a sociedade uruguaia? No ano da graça de 1904, o presidente José Batlle y Ordoñez queria garantir a separação do Estado e da Igreja. Na mesma hora convocou um plebiscito. Quando o povo correu pra votar, impulsionou o tal afastamento. O resultado foi um estrondoso e extraordinário 3/4! Até hoje os dois gigantes andam longe um do outro: Igreja pra lá, Estado pra cá. No mapa de Montevidéu não tem rua ou bairro com nome de santo... Não encontra, mesmo fazendo promessa. Hoje igrejas e seitas investem no país tentando restaurar o elo perdido. Curiosidade: é importante frisar que na época desse presidente, escritores sem religião tiveram incentivos para publicar suas fábulas mirabolantes. Outra situação que formou o pensamento nacional não foi a chegada do homem à lua, e sim, a vinda de sindicalistas anarquistas expulsos da Itália.

   Fica aqui a dica pra você visitar o Uruguai. Já conhece? Então tudo bem, conte alguma experiência que viveu, ou caso tenha parente por lá ou só amigos; mas se de repente nunca nem imaginou como seria aquela terra oriental, e tal e coisa, pode opinar também. A convocação está feita, agora é você que pode enviar sua opinião, pois é certo que em viagens rápidas, como as que andei fazendo de feriadão quando morava em Porto Alegre, não davam tempo pra apreciar assuntos suficientes sobre um país, mesmo que esse seja pequeno, o segundo menor da América do Sul, mas que deve ser o primeiro em plantação de eucaliptos e de respeito ao trânsito.

Edmilson Vieira, é artista plástico e escreve crônicas. dnv01@hotmail.com  

  

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