|
|
|
|
|
Se um dia você for
classificar os países por categoria, inclua o Uruguai na lista dos mais
tranqüilos, isso conseqüentemente quer dizer que o mundo terá uma reserva
de paz, bem ao sul da América.
|
|
Pra início de conversa, vamos ver o que se pode apregoar sobre
essa terra: em Montevidéu, a condição da natureza é de 1,6 bilhões de pés
de eucaliptos enfeitando a periferia. Cenário ecológico espalhado desde perto
da beira mar até o subúrbio mais distante. É presença marcante aos olhos
daqueles que chegam à cidade.
|
|
Sobre o trânsito, pode-se dizer que o risco de ser atropelado no
centro da capital é mínimo. Os senhores motoristas são peritos em respeitar
os pedestres. Não é necessário viver numa eterna fuga na hora de atravessar
uma avenida.
|
|
Já a ditadura militar não foi nada educada, mergulhou o país
nas trevas, e isso não é novidade, quem é da América Latina sabe que a prática
foi tradição. Os homens verde oliva cumpriram tarefa de perseguir indivíduos
para que perdessem a dignidade ou a vida. Aproveitaram pra fazer um trabalho
parecido com a política de Hitler de destruição das minorias. Com o decreto
do estado de sítio chegavam ao absurdo de apagar as luzes dos bairros, isolavam
as quadras pra fazer a batida e aí entravam nas casas sem pedir licença. Se
uma pessoa fosse fazer visita a um parente ou amigo e permanecesse até à
noite, o passeio seria considerado crime; a turnê tinha como resultado a prisão
e aí virou uma das formas da tragédia dos desaparecidos. A insanidade de
alguns subordinou o povo ao auto-isolamento.
|
|
"Caminhando e cantando" na Praça Cachangue, no
centro de Montevidéu, mas de repente, um coletivo fazendo manifestação
semanal contra os desaparecimentos. Conheci Alejandra, jovem uruguaia. Noutro
dia em sua casa, sua mãe fez um relatório, contou que certa vez na época da
ditadura, estava na casa dos parentes com as duas filhas pequenas em um passeio
saudável de domingo e pra retornar, pediu a contribuição da sobrinha de 16
anos. Na hora que chegaram em casa, começou a batida do exército. A menina
mais nova agarrou-se aos braços da mãe e embutiu o choro, só fazia soluçar e
olhar para as armas apontadas. Eles encontraram a sobrinha e a reunião
civil/militar começou naquele momento. A pauta dizia que cada pessoa era
obrigada a mostrar o comprovante de residência. Viram que ela era de outro
endereço e em decorrência da situação, a estrutura repressiva estava pronta
para recebê-la de braços fechados. Levaram a infância. Como era início da
ditadura, advogado ainda podia fazer alguma coisa e a família nomeou um.
Reconhecido ou não o erro, uma semana depois a menina adolescente livrou-se do
corredor da morte. Ela teve de deixar o país. É lógico que os generais
uruguaios eram "os laranjas", os americanos estavam por trás do golpe
e achando pouco, enviaram professores de tortura. O nome de um deles, Dan
Mitrione, veja o filme Estado de Sítio, de Costa Gavras ou o livro "A Face
Oculta do Terror". Mas como nenhum império consegue sustentação por toda
a vida, mesmo que seja à base de propinas... Blém, caiu!
|
|
E no passado, como era a sociedade uruguaia? No ano da graça
de 1904, o presidente José Batlle y Ordoñez queria garantir a separação do
Estado e da Igreja. Na mesma hora convocou um plebiscito. Quando o povo correu
pra votar, impulsionou o tal afastamento. O resultado foi um estrondoso e
extraordinário 3/4! Até hoje os dois gigantes andam longe um do outro: Igreja
pra lá, Estado pra cá. No mapa de Montevidéu não tem rua ou bairro com nome
de santo... Não encontra, mesmo fazendo promessa. Hoje igrejas e seitas
investem no país tentando restaurar o elo perdido. Curiosidade: é importante
frisar que na época desse presidente, escritores sem religião tiveram
incentivos para publicar suas fábulas mirabolantes. Outra situação que formou
o pensamento nacional não foi a chegada do homem à lua, e sim, a vinda de
sindicalistas anarquistas expulsos da Itália.
|
|
Fica aqui a dica pra você visitar o Uruguai. Já
conhece? Então tudo bem, conte alguma experiência que viveu, ou caso tenha
parente por lá ou só amigos; mas se de repente nunca nem imaginou como
seria aquela terra oriental, e tal e coisa, pode opinar também. A convocação
está feita, agora é você que pode enviar sua opinião, pois é certo
que em viagens rápidas, como as que andei fazendo de feriadão quando
morava em Porto Alegre, não davam tempo pra apreciar assuntos suficientes
sobre um país, mesmo que esse seja pequeno, o segundo menor da América do
Sul, mas que deve ser o primeiro em plantação de eucaliptos e de respeito
ao trânsito.
|
|
|
|
Edmilson Vieira, é artista plástico e escreve crônicas.
dnv01@hotmail.com
|
|
|
| Contato |
| Deixe um
recado comentando o texto para Edmilson Vieira |
|
|
|
|