|
Você chega em
Recife, admira prédios e monumentos antigos, sabe que
eles têm história, e aí tenta entender através dos
livros, mas geralmente a leitura cozinha a cabeça com
datas e termos impessoais repetindo o mesmo cerimonial
de aulas irritantes de história. Assim fica o dito pelo
não dito. O objetivo deste texto não é pra você entender
o que aconteceu em Pernambuco e a partir desse momento
passar em qualquer concurso ou vestibular, mas sim,
pintar um quadro da pirâmide brasileira de antigamente.
O lugar onde quase tudo começou foi na cidade de Tordesilhas no
norte da Espanha em 1494. Os dois países Espanha e
Portugal, especializados em viagens marítimas, depois de
tremendo bate-boca, chegaram a um acordo sem comparação
no mundo. O rei da Espanha marcou uma linha divisória no
mapa mundi começando numa ilha chamada Cabo Verde, perto
do continente africano. Mostrou o mapa para o rei de
Portugal e disse: “saindo daqui dessa ilha, na beira da
África, vou passar uma linha reta em direção a outra
ilha que futuramente vai se chamar Cuba. E veja, vou
indo com ela, até atingir a distância de 370 léguas, o
limite chega aqui e pára. Agora, preste atenção que vai
ficar excelente para vossa alteza. Para finalizar, farei
outra linha descendo no globo terrestre, não vai ficar
bonito esteticamente, mas todas as terras que forem
encontradas do lado de cá deste traço, serão de seu país
e as do lado de lá, pertencerão a minha Espanha”. O
monstro espanhol nem perguntou ao outro se estava tudo
OK. Parece que ele não era bom desenhista e puxou mais
para o seu lado. Essa criação genuína ficou chamada como
Tratado de Tordesilhas.
Depois desse acontecimento o Brasil foi invadido pelos portugueses
e eles conseguiram ocupar Pernambuco aos poucos. Era a
região que mais dava certo, não era estado ainda, se
chamava capitania. Mas tinha um dono, o rei de Portugal.
Ele na verdade não queria perder o país para os
franceses, e aí se prestou a dividir o Brasil em 15
partes. Na porta do castelo formou-se uma fila indiana
para receber essas fatias chamadas de Capitanias
Hereditárias. Esse nome era porque os donos prometiam ao
rei que iam passar de pai pra filho, hereditariamente.
As únicas que progrediram foram as de Pernambuco e de
São Vicente, mas vale lembrar que os donatários cruzaram
o atlântico para monopolizar e até hoje são as mesmas
famílias donas das terras e do poder político.
Com a chegada desses homens os índios passaram por uma prova de
fogo: os que conseguiam sobreviver, viravam escravos nos
engenhos de cana-de-açúcar. Antes de tudo, os donatários
funcionavam como atravessadores mandando pra Portugal, o
pau-brasil que os nativos cortavam em troca de espelhos.
Quem estava em Portugal recebia um bom presente, já que
a madeira dessa região era a melhor do Brasil. A essa
altura do campeonato, é conveniente dizer que os índios
perderam as terras, a língua e a paz. Deve ter baixado
um espírito de depressão geral nas tribos, um horror sem
precedentes. Mas para os senhores de engenho, a
estratégia não estava dando certo e a opção foi ameaçar
a vida de outros povos, em outro continente: na África.
As caravelas partiram em direção à Guiné e depois ao Congo. O saldo
de quem conseguiu sobreviver à viagem, era de ser
coadjuvante com os índios no trabalho da cana-de-açúcar
no novo endereço na América do Sul.
Para completar a intervenção, chegou a equipe da Igreja. O mundo
certo era o deles, e de boca-em-boca, foram dizendo que
índios e africanos estavam errados e que deveriam se
manter longe dos seus costumes. A partir daquela época,
os eventos foram proibidos.
Mas uns cem anos depois, o sol da ciência raiou em Pernambuco,
quando os holandeses fascinados pelo comércio do açúcar,
enviaram Maurício de Nassau. Ele fez verdadeira
revolução no pedaço de mangue que se constituía o centro
do Recife. Saneou as ruas e os conflitos, trouxe
especialistas pra pintar o exotismo do povo, fez leitura
da vida pernambucana com dimensões magníficas, deu
liberdade pras religiões se desenvolverem e acabou o
duelo das classes. É certo que os trabalhos de Frans
Post e Alberto Eckhout abismaram a Europa. O progresso
cresceu a perder de vista em Paranã buka,(mar furado),
como chamavam os índios.
Chega! Guerra nunca mais. Mas inveja é uma desgraça e o conde
holandês foi chamado de volta ao país laranja. O
desfecho foi cruel, o comandante Von Schkoppe que ficou
no seu lugar deu um golpe nas liberdades e a cortina de
fumaça voltou para Pernambuco. Em cada esquina o povo
falava mal da figura do comandante. Dessa vez a luta foi
chamada de Insurreição Pernambucana, se encerrando com a
expulsão dos holandeses na Batalha dos Guararapes.
Passados uma quantidade de décadas depois dos holandeses, os
moradores de Recife e Olinda não conseguiam viver em paz.
Quem morava em Recife eram os imigrantes de Portugal,
negociantes endinheirados que ofereciam seus produtos de
porta em porta. Por causa dessa cena, foram apelidados
de mascates. Os moradores de Olinda eram senhores de
engenho endividados que viviam de aparências e também de
pedir dinheiro emprestado aos mascates. Os portugueses
de Recife aproveitaram pra carregar nas tintas e
passaram a chamar os olindenses de “pé-rapado”.
Com o clima elevado entre as duas cidades, a situação piorou quando
o capitão governante achou que estava na hora fantástica
de transformar Recife numa vila, e pra isso conseguiu a
ordem do rei de Portugal. Os homens-bomba de Olinda
invadiram Recife e foram à guerra contra os imigrantes
portugueses. Esse evento ficou presente na história como
Guerra dos Mascates. Se tivesse demorado mais um pouco,
quem sabe, poderia ter se transformado na Primeira
Guerra Mundial. Ah, mas como deveria ser feia uma guerra
naquela época, sem americano nem Rede Globo para
escolher as cenas que devem ir ao ar e fazer o conflito
virar espetáculo.
Esse é um perfil do estado que sempre protestou, e paramos aqui. A
continuidade evidente é esperar que o escritor tenha lhe
dado o recado certo, em relação à história.
Edmilson Vieira é artista
plástico e escreve
crônicas dnv01@hotmail.com
|